Imagine um candidato gravando um vídeo caseiro, sem gravata, sem assessor de imprensa, sem o roteiro cuidadosamente ensaiado pelo marketing. Ele fala olhando direto pra câmera, erra uma palavra, ri de si mesmo, e em 48 horas tem dois milhões de visualizações. Agora imagine o mesmo candidato, no dia seguinte, com o vídeo derrubado por violar alguma política de conteúdo que ninguém leu, ninguém entende, e que o algoritmo aplica com a imparcialidade cirúrgica de um tribunal kafkiano. Bem-vindo ao novo campo de batalha eleitoral.
As próximas eleições serão, mais do que qualquer outra na história recente do Brasil, uma disputa travada dentro das redes sociais. Não ao lado delas, não por causa delas. Dentro. Instagram, TikTok, YouTube, X e WhatsApp deixaram de ser canais de comunicação para se tornarem o próprio terreno onde a política acontece. E esse terreno tem regras próprias, que mudam sem aviso, são aplicadas de forma inconsistente, e pertencem a empresas que não prestam contas a nenhum eleitor.
A Promessa Sedutora da Escala
Comecemos pelo lado bom, porque ele existe e é real. Nunca na história da política brasileira um candidato com zero reais em caixa teve a capacidade de falar diretamente com um milhão de pessoas. Hoje tem. Um post bem construído, um clip com boa edição e uma mensagem que ressoa emocionalmente pode ultrapassar qualquer campanha milionária de TV aberta. O alcance orgânico que as plataformas ainda oferecem para criadores que dominam seus códigos é um equalizador de força sem precedentes.
Isso muda a estrutura de poder dentro dos partidos. O vereador que tem 300 mil seguidores vale mais do que o deputado que controla a verba do diretório. A candidata que viraliza toda semana não precisa do padrão nobre do jornal local para existir politicamente. A narrativa pode ser construída em tempo real, testada com o público, ajustada no dia seguinte. A escala das redes é a maior oportunidade que a política democrática encontrou em décadas para renovar seus protagonistas.
A Linha Tênue que Pode Derrubar uma Campanha
Mas a mesma plataforma que amplifica pode silenciar. E faz isso com uma velocidade que nenhum advogado eleitoral consegue acompanhar. As políticas de conteúdo das grandes redes criaram um labirinto onde discurso político legítimo e desinformação muitas vezes compartilham a mesma zona cinzenta. Um anúncio sobre segurança pública pode ser barrado por mencionar armas. Um vídeo criticando uma política governamental pode ser rotulado como conteúdo sensível. Uma transmissão ao vivo pode ser interrompida por um algoritmo que identificou, erroneamente, uma violação nos primeiros segundos.
E o processo de contestação? Lento, opaco e frequentemente frustrante. Enquanto o recurso tramita, o momento passou. O ciclo de notícias seguiu. O algoritmo já enterrou o conteúdo nas profundezas do feed. Para uma campanha que depende de timing e viralização, três dias sem resposta de uma plataforma podem equivaler a uma derrota eleitoral. A assimetria de poder entre as big techs e os candidatos nunca foi tão escandalosamente evidente.
Se o algoritmo já é um juiz implacável, a Justiça Eleitoral é outro. E essa não recorre a erro de sistema. O arcabouço legal brasileiro para crimes eleitorais cometidos nas redes é robusto, severo e, muitas vezes, desproporcional à velocidade com que o ambiente digital opera. Um candidato que publica uma informação incorreta sobre o adversário, mesmo que corrija em seguida, pode responder por propaganda eleitoral irregular. Um post interpretado como abuso de poder de comunicação pode resultar em cassação de registro. Uma live que saia do script e mencione algo fora do período permitido pode custar não só a multa, mas a candidatura inteira.
O problema é que a lei foi escrita para um mundo onde o candidato tinha tempo de revisar o roteiro antes de ir ao ar. Nas redes, o ao vivo é permanente, o erro é instantâneo e o print é eterno. Um deslize verbal que antigamente ficaria restrito ao ginásio onde foi dito hoje circula em loop nas stories, é recortado fora de contexto, denunciado ao TSE e vira processo antes que a assessoria jurídica sequer seja notificada. O candidato que navega mal nesse campo não enfrenta apenas a rejeição do eleitor. Enfrenta o risco real de ser tirado do jogo por completo.
Quem Vai Sobreviver a Esse Jogo?
Os políticos que vão se sair bem nas próximas eleições serão aqueles que entenderem que as redes sociais não são um microfone. São um ecossistema com cultura própria, com estética própria, com ritmo próprio. Não basta estar presente. É preciso pertencer. E esse pertencimento exige uma autenticidade que a maioria dos políticos brasileiros, formatados por décadas de comunicação top-down, simplesmente não tem.
Ao mesmo tempo, vão se sair bem aqueles que aprenderem a operar dentro das regras sem se deixar sufocar por elas. Isso significa ter equipes que conhecem os termos de serviço de cada plataforma tão bem quanto a legislação eleitoral. Significa diversificar canais para não depender de uma única plataforma que pode mudar sua política da noite para o dia. Significa construir uma base própria de contatos, seja uma lista de e-mails, um canal no Telegram ou uma comunidade no WhatsApp, que existe independente do humor do algoritmo.
O paradoxo das redes sociais na política é este: elas democratizam o acesso ao público e centralizam o controle ao mesmo tempo. Nunca foi tão fácil falar com um milhão de pessoas. Nunca foi tão fácil ser silenciado por uma empresa que não deve satisfações a ninguém, ou processado por uma fala que saiu errada na velocidade do ao vivo. Os candidatos que entenderem essa tensão, e aprenderem a navegar nela com inteligência, criatividade e alguma dose de ousadia, terão uma vantagem competitiva enorme. Os demais vão descobrir, da pior forma possível, que construir uma campanha sobre areia digital é arriscado demais.
Esta é uma coluna de opinião. Os pontos de vista expressados são do autor e não refletem necessariamente a posição editorial do veículo.

