Enquanto exportações de veículos da China disparam, vendas domésticas registram 10 meses de retração, refletindo excesso de capacidade e demanda fraca
A indústria automotiva da China vive um momento de contrastes. Enquanto as montadoras do país asiático conquistam mercados no exterior e pressionam gigantes como Toyota e Volkswagen, o cenário doméstico é de retração. As vendas de carros na China acumulam dez meses consecutivos de queda, um reflexo da demanda enfraquecida dos consumidores e de uma intensa guerra de preços que saturou o maior mercado automotivo do mundo. Segundo dados da Associação Chinesa de Veículos de Passageiros divulgados na terça-feira (11), as vendas de carros no país caíram 20% em julho, totalizando 1,47 milhão de unidades, em comparação com o mesmo mês do ano anterior. Na contramão, as exportações dispararam 88%, alcançando 923 mil veículos. Essa tendência de queda interna e forte crescimento externo é observada inclusive entre as montadoras nacionais.
Para analistas, a expansão internacional de marcas como BYD, Geely e Chery, antes vista como uma ambição, tornou-se uma necessidade econômica. "As montadoras chinesas têm excesso de capacidade de produção, cadeias de suprimentos altamente competitivas, produtos cada vez mais sofisticados e um forte incentivo econômico para buscar crescimento fora da China", afirma Bill Russo, presidente-executivo da consultoria Automobility. Ele acrescenta que a internacionalização "está se tornando uma necessidade estratégica". O presidente da associação de automóveis de passageiros, Cui Dongshu, atribui a fraqueza recente do mercado interno aos altos preços dos combustíveis, que afetam a procura por veículos a gasolina, e a uma desaceleração no segmento de sedãs básicos. De forma mais ampla, a situação do setor automotivo espelha a economia chinesa: o crescimento é impulsionado por fábricas e exportações, enquanto o consumo interno é contido por um mercado imobiliário fraco e gastos moderados. No primeiro semestre do ano, as vendas domésticas de automóveis na China registraram uma queda de 2,3 milhões de veículos, ou 20% a menos que no ano anterior.
Em contrapartida, as exportações de carros chineses aumentaram 71% no mesmo período. A montadora BYD, por exemplo, conseguiu compensar uma queda de 35% nas vendas internas nos primeiros sete meses do ano com um aumento de 79% nas exportações, tendo Brasil e Reino Unido como seus maiores mercados fora da China. A ascensão chinesa representa um desafio direto para o Japão. Desde 2023, a China se consolidou como a maior exportadora mundial de veículos, título que por muito tempo pertenceu ao seu rival asiático. Segundo Russo, a vantagem competitiva da China hoje vai além da eficiência, abrangendo "eletrificação, baterias, software, recursos inteligentes, escala da cadeia de suprimentos e desenvolvimento de produtos muito rápido".