Caso raro: câncer se espalhou entre gêmeas ainda no útero

Estudo genético aponta que células tumorais passaram de uma irmã para outra através da placenta, levantando novas questões sobre a gestação de gêmeos

Duas irmãs gêmeas, Amelia e Amaya, morreram logo após o nascimento em decorrência de um tipo raro de câncer que se desenvolveu durante a gestação e foi transmitido de uma para a outra ainda no útero. Uma investigação conduzida por pesquisadores da Inglaterra revelou que células cancerígenas de uma das bebês alcançaram a outra provavelmente por meio dos vasos sanguíneos compartilhados pela placenta. O estudo, publicado na revista Nature Communications, analisou o material genético das irmãs para entender a origem dos tumores. As gêmeas nasceram de cesariana com 34 semanas, após exames de imagem detectarem uma massa no rosto de uma delas. Após o parto, os médicos confirmaram que ambas tinham tumores em diferentes partes do corpo, o que levou ao óbito pouco tempo depois. Sam Behjati, professor da Universidade de Cambridge e autor do estudo, destacou a raridade do caso.

"Ter câncer ao nascer é extremamente raro", afirmou em entrevista ao portal NewScientist. A pesquisa buscou determinar se a doença surgiu de forma independente nas duas ou se começou em uma e se espalhou. O sequenciamento do genoma de 45 amostras de células dos órgãos, da placenta e dos tumores das irmãs mostrou que o câncer começou na "gêmea A". A doença foi desencadeada por uma fusão anormal entre os genes MN1 e ZNF341, por volta do fim do primeiro trimestre da gravidez. As lesões foram classificadas como sarcomas de tecidos moles, um tipo raro de câncer. Por volta do fim do segundo trimestre, as células cancerígenas chegaram à "gêmea B".

Os tumores encontrados na segunda irmã eram compostos por células originadas na primeira, confirmando a transmissão. Segundo os pesquisadores, a circulação sanguínea compartilhada pela placenta é a explicação mais provável para a disseminação. Além de esclarecer a origem do câncer, a análise genética trouxe uma descoberta sobre a formação das gêmeas idênticas. Os resultados sugeriram que apenas uma célula do embrião original formou a gêmea A, enquanto as demais células deram origem à gêmea B e à placenta. Este achado contraria a ideia tradicional de que um embrião sempre se divide em duas metades equivalentes para formar gêmeos idênticos, indicando que o processo pode ser mais complexo.

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