Protótipo nomeado SpudCell se alimenta, cresce e replica, abrindo caminho para organismos programáveis e novas soluções biológicas.
Cientistas anunciaram ter construído, pela primeira vez, uma célula totalmente do zero, usando apenas componentes químicos não vivos. A criação é capaz de se alimentar, crescer e se replicar de forma semelhante a uma célula natural, representando um marco na biologia sintética que pode dar início a uma nova era de organismos feitos sob medida. A pesquisa foi liderada por Kate Adamala, bióloga sintética e professora da Universidade de Minnesota. Sua equipe montou a célula, batizada de "SpudCell", peça por peça. Embora seja um protótipo ainda frágil e limitado, a criação permite que os cientistas entendam melhor as origens da vida e, no futuro, programem organismos para solucionar problemas biológicos complexos. A SpudCell não é uma célula vegetal ou animal, assemelhando-se mais a uma bactéria simples. "Eu conheço a lista completa de ingredientes da célula, sei exatamente quais substâncias químicas, quais moléculas e em quais concentrações", afirmou Adamala. Segundo ela, por ser totalmente definida, a célula pode ser modificada geneticamente com precisão. Especialistas que não participaram do estudo classificaram o trabalho como um avanço significativo.
Yuval Elani, professor do Imperial College London, afirmou que a construção de uma célula do zero "abre a possibilidade de projetar sistemas e programá-los para fazer coisas que as células vivas podem não fazer facilmente". Tom Ellis, também do Imperial College, descreveu a criação como "provavelmente o maior avanço dos últimos tempos no campo das células sintéticas". O artigo científico que detalha o funcionamento da SpudCell foi tornado público, embora ainda aguarde publicação em uma revista com revisão por pares. Adamala, junto aos cientistas Drew Endy e Jan Jedryszek e ao empreendedor Chris Raggio, fundou a instituição de interesse público Biotic, que visa ampliar as capacidades da célula e disponibilizá-la a outros pesquisadores. Composta por 150 a 200 moléculas, a SpudCell é muito mais simples que uma célula biológica, que pode conter bilhões de moléculas. Adamala a descreveu como "um organismo incrivelmente frágil". Sua replicação leva cerca de 12 horas a uma temperatura de 30 graus Celsius, enquanto a bactéria E. coli, por exemplo, se divide a cada 30 minutos. Além disso, seu genoma possui 90.000 pares de bases, contra 4,6 milhões da E.
coli, e ela depende de ribossomos externos para sintetizar proteínas. Apesar das limitações, os pesquisadores demonstraram que a célula sintética responde à seleção natural. Quando uma alteração genética para aumentar a produção de uma proteína de crescimento foi introduzida, as células com essa característica se dividiram mais rapidamente. Drew Endy, professor de bioengenharia da Universidade Stanford e cofundador da Biotic, esclarece que a SpudCell não pode ser considerada "vida" e, em seu estado atual, não apresenta riscos de biossegurança. "Ela só consegue se dividir se você fornecer tudo o que precisa, incluindo ribossomos", explicou. Ele e Adamala destacam que, por ser construída do zero, será possível projetar mecanismos de segurança diretamente em seu genoma. O objetivo da Biotic é que a tecnologia se torne um padrão global para a biologia celular sintética, funcionando de maneira similar a um sistema de código aberto como o Linux. A tecnologia será gratuita para uso acadêmico e sem fins lucrativos, com taxas de licenciamento para aplicações comerciais. "O que me entusiasma é que estamos reunindo a comunidade internacional para acelerar o desenvolvimento e torná-la útil", concluiu Adamala.