Com 48 seleções e sediada em três países, torneio adota modelo de negócio americano e mira faturamento 75% maior que a edição do Catar
A Copa do Mundo de 2026, a primeira da história realizada em três países e com 48 seleções, está redefinindo o conceito de gigantismo no esporte. A projeção de faturamento para o ciclo quadrienal do torneio é de 13,2 bilhões de dólares, um aumento de 75% em relação à edição do Catar, em 2022. Desse total, 11,3 bilhões de dólares devem ser gerados apenas durante os quarenta dias de competição. O impacto econômico global é estimado em 41 bilhões de dólares no PIB mundial, com a criação de 824 mil empregos, segundo um estudo da Organização Mundial do Comércio. A expectativa é que cerca de 6 bilhões de pessoas acompanhem o evento em algum momento, tornando esta a edição mais cara, lucrativa e assistida de todos os tempos. “Você coloca o maior evento esportivo do mundo no maior mercado de mídia e entretenimento do planeta e a miríade de oportunidades é estonteante”, afirma Amy Hopfinger, diretora de negócios e estratégia da Fifa. Parte desse sucesso financeiro vem da adoção de estratégias comerciais do mercado americano. Uma delas é a implementação de preços dinâmicos para os ingressos, que variam conforme a demanda, de forma similar a passagens aéreas. Antes do início do torneio, um ingresso para a final em Nova Jersey já custava 10.990 dólares.
A Fifa registrou 500 milhões de pedidos para os 7 milhões de assentos disponíveis. Outra tática importada do Super Bowl, a final do futebol americano, é a realização de grandes shows musicais nas cerimônias de abertura e no intervalo da final. Com nomes como J Balvin, Katy Perry, Anitta e Alanis Morissette, a estratégia visa ampliar o alcance do evento para além dos fãs de futebol e aumentar a exposição das marcas patrocinadoras. O crescimento da Copa reflete um fenômeno maior. Segundo o Bank of America, a indústria do esporte movimentou 2,3 trilhões de dólares em 2023, com projeção de alcançar 3,7 trilhões em 2030. Esse volume atraiu grandes fundos de investimento, que hoje detêm participação em 36% dos clubes das cinco principais ligas de futebol da Europa. Em uma iniciativa estratégica, a Fifa também está testando novos modelos de mídia. A organização liberou a transmissão ao vivo dos primeiros dez minutos de cada partida em plataformas como TikTok e YouTube. No Brasil, a CazéTV transmite todos os 104 jogos gratuitamente pelo YouTube, quebrando uma longa exclusividade da Globo.
“Eles estão testando o mercado, na próxima Copa isso vai virar mais uma linha de receita”, avalia Ricardo Fort, executivo com passagens pela Coca-Cola e Visa. Enquanto o futebol global avança, o Brasil parece ficar para trás. Apesar de ser o maior exportador de jogadores e ter um mercado consumidor apaixonado, o Campeonato Brasileiro ainda opera com uma lógica antiga. Problemas como gramados irregulares, falta de padrão visual, arbitragem inconsistente e horários de jogos inadequados para o mercado internacional limitam o potencial de faturamento. Rodrigo Capelo, sócio do hub de conteúdo Sport Insider, aponta que a Conmebol conseguiu organizar a Libertadores e multiplicar seu faturamento por trinta, enquanto os clubes brasileiros perdem oportunidades. “No Brasil os clubes continuam brigando por miudezas e deixando muito, muito dinheiro na mesa”, afirma. A Copa do Mundo de Clubes de 2025, com a participação de Flamengo, Fluminense, Palmeiras e Botafogo, serviu como uma amostra do potencial dos times brasileiros em eventos de padrão global. Para o país, o desafio é construir um produto doméstico que consiga capturar uma fatia mais justa do bilionário mercado do futebol.