Crise em Ceuta: Centenas de crianças migrantes ficam retidas após travessia em massa

Governo da Espanha anunciou ajuda de 25 milhões de euros para atender os menores desacompanhados que chegaram ao enclave espanhol

Centenas de crianças e adolescentes migrantes enfrentam um presente difícil e um futuro incerto em Ceuta, um enclave espanhol no norte da África. A situação ocorre quatro dias após uma entrada coletiva de cerca de 60 mil pessoas que deixaram o Marrocos. Em resposta à crise humanitária, o governo da Espanha anunciou nesta terça-feira (4) uma verba de 25 milhões de euros, o equivalente a R$ 146,5 milhões, para atender os menores desacompanhados. Segundo autoridades locais, aproximadamente 860 crianças e adolescentes permaneciam em Ceuta até a última segunda-feira. Eles são parte de um grupo de 3 mil a 5 mil migrantes que conseguiram evitar a expulsão imediata. Durante a travessia em massa, as autoridades espanholas confirmaram 72 mortes, a maioria por afogamento. O Ministério do Interior da Espanha informou que o Marrocos registrou outras 11 mortes, não incluídas no balanço espanhol. O drama dos menores é exemplificado pela história de uma jovem de 17 anos, natural de Tânger.

Em depoimento a um fotojornalista da Associated Press, ela contou que tentou cruzar a fronteira a nado com a família em busca de melhores oportunidades. A adolescente viu o corpo do irmão, de 8 anos, ser retirado da água por policiais espanhóis. Ela conseguiu chegar à costa, mas se separou da mãe e passou os dias seguintes sozinha. A identidade da jovem foi preservada por ser menor de idade. Ela relatou ter recebido comida e roupas de moradores e ajuda para tomar banho, mas encontrou o centro governamental para jovens lotado. “Vi pessoas pisando em corpos”, disse ela, por meio de um tradutor. “Agora somos crianças pedindo esmola nas ruas.” Pela legislação espanhola, menores desacompanhados têm direito à proteção e assistência das autoridades. A situação é diferente para os adultos, que podem solicitar asilo, mas ficam sujeitos a expulsão se o pedido for negado.

Um jornalista da AP presenciou soldados espanhóis escoltando um menino marroquino que chorava e pedia para não ser enviado de volta, até que um tenente-coronel do Exército interrompeu a repatriação e o entregou à Guarda Civil, após pressão de populares e da imprensa. A maioria dos adultos marroquinos retornou voluntariamente ou foi devolvida pela polícia espanhola. Entre os que permanecem em Ceuta há também grupos de sudaneses, palestinos, afegãos e cidadãos de outras nações africanas. O centro de acolhimento da cidade, com capacidade para 600 pessoas, está lotado. O ativista de migração Ramsés Mohamed Azumik, da associação Elín, afirma que as condições são precárias. “A estratégia é que a fome, a sede e o cansaço façam essas pessoas decidir retornar voluntariamente ao Marrocos”, declarou. Muitos migrantes dormem na praia e nas colinas que cercam o território, com o olhar voltado para a Europa continental, o destino final almejado por grande parte deles.

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