Especialistas apontam a necessidade de plano para superávit primário, disciplina na LDO e critérios institucionais para recompor credibilidade
A condução da economia e os primeiros passos na definição de prioridades fiscais e políticas são avaliados por especialistas como pontos decisivos para a recuperação da confiança dos investidores. Economistas apontam que as sinalizações dadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva podem demonstrar a direção da política fiscal e institucional, sem a necessidade de postergar definições. Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA, elenca três eixos fundamentais que demandam negociação política e estabelecimento de prioridades. O primeiro deles é evitar alocar todas as promessas de campanha no orçamento de 2027. O especialista recomenda distribuir as medidas ao longo do mandato para que o mercado consiga mensurar a dimensão dos compromissos, lembrando que postergar gastos sem definir fontes futuras de financiamento mantém incertezas. Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos, ressalta que o desenho da trajetória das contas públicas precisa estar no centro das atenções.
De acordo com o especialista, o governo deve apresentar e aprovar com rapidez um plano voltado à recuperação do superávit primário, com ações distribuídas gradualmente no tempo para assegurar viabilidade prática e previsibilidade aos agentes econômicos. O segundo ponto apontado por Bittencourt envolve a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias). A proposta apresentada pelo economista sugere que o Executivo oriente o controle de despesas pelo centro da meta fiscal, em vez de se basear no limite inferior da margem de tolerância. Tal diretriz determinaria um esforço fiscal mais rigoroso caso a arrecadação não atinja o volume previsto, medida que poderia ser ajustada na própria lei orçamentária por meio de acordo com o Congresso. A terceira frente indicada abrange as indicações para o Banco Central e para o Supremo Tribunal Federal (STF). Na visão de Bittencourt, as nomeações representam um teste de disposição para recuperar a imagem institucional junto aos investidores, operando em paralelo à credibilidade fiscal.
A economista Zeina Latif sustenta que a formação de um time econômico empoderado e munido de diagnósticos corretos é essencial. Latif também ressalta a relevância da articulação política com o centro democrático no Congresso e a atuação de uma Casa Civil com capacidade política para dar sustentação aos ministérios e viabilizar aprovações legislativas. A construção desse apoio parlamentar impõe desafios como convencer aliados a dividir o desgaste de eventuais ajustes fiscais. Segundo os analistas, um redirecionamento consistente nas contas públicas poderia amenizar os juros de mercado e facilitar o refinanciamento de dívidas para famílias e empresas em um cenário de desaceleração econômica.