Fenômeno climático pode atingir produções de arroz, milho e café, com reflexos na inflação, apesar de previsão de safra recorde.
Após uma alta de 1,33% em maio e um recuo de 0,24% em junho, os preços do grupo “Alimentação e Bebidas” entram em um novo ciclo agrícola sob a ameaça do El Niño. O fenômeno climático, já estabelecido no Pacífico Equatorial, tem 81% de probabilidade de atingir um nível muito forte entre o fim da primavera e o início do verão, segundo a agência americana NOAA. As previsões indicam um cenário de risco para a produção agrícola brasileira. Um painel conjunto divulgado pelo INMET e outras instituições aponta chuvas acima da média no Sul, menos precipitações no centro-norte e temperaturas elevadas em grande parte do país para o trimestre de julho a setembro. Essa instabilidade climática expõe a vulnerabilidade de culturas essenciais. O Rio Grande do Sul, responsável por 70% do arroz nacional, pode sofrer com o excesso de chuvas, afetando desde o plantio até a logística de escoamento. Um problema regional no estado pode rapidamente impactar o abastecimento de todo o país. No Centro-Oeste, a preocupação é com a irregularidade das chuvas, que pode atrasar o plantio da soja e encurtar a janela para o cultivo do milho.
O calor excessivo agrava a situação de um grão que é base para a ração de aves, suínos e bovinos. Assim, o preço do milho pode se refletir no valor dos ovos, do leite e das carnes. O café, liderado pela produção de Minas Gerais, também enfrenta um quadro sensível. A lavoura depende da regularidade de chuvas e temperaturas em fases críticas como a florada e o enchimento dos grãos. Um El Niño intenso pode ampliar a irregularidade hídrica, com efeitos duradouros sobre a safra. Apesar dos riscos, o Brasil conta com um amortecedor importante. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a safra 2025/2026 em 358,6 milhões de toneladas, a maior da história. Contudo, uma produção recorde não protege o consumidor de quebras localizadas em culturas específicas, da deterioração da qualidade ou de problemas no transporte.
A inflação dos alimentos não depende de um fracasso total da agricultura. Bastam perdas pontuais em produtos importantes, combinadas com estoques baixos ou câmbio desfavorável, para que os preços subam no atacado e no varejo. O maior desafio do país não é a falta de previsões, mas a dificuldade de transformá-las em ações concretas, como ajustes no seguro rural, no crédito e na logística. Quando a alta de preços chega ao supermercado, a maior parte das oportunidades de prevenção já foi perdida. O El Niño não é uma sentença de inflação, mas um alerta. Seus efeitos podem ser contidos com planejamento e decisões públicas que antecedam as perdas. A omissão pode transformar um risco climático conhecido em um aumento de preços que, em parte, poderia ter sido evitado.