Documento do governo Trump, de outubro de 2025, também exigia compra de aviões da Boeing e preferência em minerais críticos, segundo fontes do Itamaraty
O governo dos Estados Unidos apresentou ao Brasil, em outubro do ano passado, uma proposta de negociação comercial com condicionantes políticas e econômicas. O documento incluía a garantia de participação de "dissidentes políticos" nas eleições brasileiras de 2026, a exigência de compra de aeronaves da Boeing por companhias aéreas nacionais e um direito de preferência na aquisição de jazidas de minerais críticos. A proposta foi recebida em 16 de outubro de 2025 pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enquanto preparava um encontro em Washington com o secretário de Estado, Marco Rubio, e o chefe do Escritório do Representante Comercial da Casa Branca (USTR), Jamieson Greer. A reunião buscava ser um "quebra-gelo" após um encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Assembleia Geral da ONU. Segundo informações confirmadas pela CNN Brasil, o documento foi enviado pela equipe técnica do governo Trump durante as conversas preparatórias. Ao tomar conhecimento do conteúdo, o ministro Mauro Vieira teria informado o Palácio do Planalto e rejeitado prontamente os termos.
Fontes do governo afirmam que os pontos sequer foram mencionados na reunião com Rubio e Greer. Nos bastidores, o Itamaraty classificou a iniciativa como "bullying diplomático", afirmando que a proposta "nasceu morta" e nunca fez parte das barganhas oficiais. A menção a "dissidentes políticos" foi imediatamente rechaçada por não ter validade jurídica em uma democracia. A exigência sobre a compra de aviões da Boeing foi vista como uma tentativa de ingerência indevida em negócios privados, já que as companhias aéreas no Brasil têm autonomia para escolher seus fornecedores. A lista de pedidos do governo Trump também incluía a adesão do Brasil ao "princípio da neutralidade competitiva" em relação ao papel do Banco Central como regulador de meios de pagamento como o Pix. Além disso, os EUA pediam a eliminação de tarifas de importação sobre etanol, produtos químicos, máquinas, veículos e bens de alta tecnologia americanos.
Outra demanda era que o Brasil informasse previamente sobre transferências de controle de ativos na área de minerais críticos, dando a empresas americanas uma espécie de direito de preferência na compra. A avaliação de negociadores brasileiros é que a proposta se assemelhava a um "corta e cola" de acordos feitos pela gestão Trump com outros países. Procurados, o Departamento de Estado dos EUA e o Itamaraty não se pronunciaram sobre o caso. Diplomatas brasileiros expressaram preocupação com o vazamento do conteúdo, lembrando que o governo americano costuma exigir confidencialidade e adota postura agressiva contra países que divulgam detalhes das tratativas.