Hamas anuncia dissolução de governo em Gaza e propõe comitê palestino

Medida é vista como manobra para pressionar Israel e destravar acordo de cessar-fogo mediado pelos EUA, mas não inclui o desarmamento do grupo

O Hamas anunciou na segunda-feira (6) que irá dissolver seu governo na Faixa de Gaza, em uma medida que especialistas avaliam como uma forma de pressionar Israel diante da estagnação do plano de cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos. O chefe do Gabinete de Mídia do Governo (GMO) do Hamas, Ismail al-Thwabta, declarou que o grupo está pronto para transferir a administração do território para um comitê tecnocrata palestino. Apesar do anúncio, o comunicado do Hamas não faz qualquer menção ao desarmamento, uma das principais exigências da segunda fase do acordo de paz, algo que o grupo tem rejeitado. Na prática, a decisão tem pouco efeito imediato, já que o Hamas e suas forças de segurança mantêm controle firme sobre as áreas de Gaza não ocupadas por militares israelenses. Ainda assim, a medida simbólica joga o foco do acordo de volta para Israel, no momento em que o presidente americano Donald Trump pressiona o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a avançar com o plano. Isso inclui o estabelecimento de "áreas-piloto" no território, onde a população viveria sob a gestão do comitê tecnocrata. O Hamas apelou para que mediadores e a comunidade internacional pressionem Israel a permitir a entrada do comitê em Gaza.

“Convocamos todas as partes interessadas e relevantes a acelerar imediatamente os trâmites para que o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG) entre em ação rapidamente e assuma suas atribuições”, afirmou al-Thwabta em um comunicado. O Conselho de Paz, criado para promover o acordo, afirmou ter "tomado nota" do anúncio, mas ressaltou que aguardaria "ações, não promessas". Em uma publicação na rede social X, o conselho pediu o desarmamento do Hamas, declarando que "o princípio fundamental continua sendo: uma autoridade, uma lei e uma arma". Para Muhammad Shehada, especialista em Gaza do Conselho Europeu de Relações Exteriores, a declaração é uma tentativa do Hamas de "passar por cima de Netanyahu" e apelar diretamente a Trump. Segundo ele, o grupo tenta mostrar disposição para abrir mão da governança, mas a jogada pode ser tardia. “Mesmo que essa aposta dê certo, Israel ainda detém o controle final sobre tudo em Gaza”, disse Shehada à CNN. O NCAG foi idealizado em outubro como parte do plano de cessar-fogo para assumir a administração de Gaza, mas o comitê permaneceu no Cairo, sem conseguir entrar no território.

O Hamas informou que os cerca de 60 mil funcionários de sua administração poderiam continuar trabalhando sob a nova gestão. Michael Milshtein, chefe do Fórum de Estudos Palestinos da Universidade de Tel Aviv, não se surpreendeu com o anúncio. Ele o descreveu como um esforço do Hamas e dos mediadores, como Catar, Turquia e Egito, para alterar a dinâmica e aumentar a pressão dos EUA sobre Israel para implementar as próximas etapas do acordo. O plano de cessar-fogo de 20 pontos, em vigor desde outubro, está paralisado. A primeira fase previa o fim dos combates, mas Israel continua realizando ataques quase diários. Segundo o Ministério da Saúde palestino, mais de mil pessoas morreram em Gaza desde o início do cessar-fogo. As forças israelenses, em vez de se retirarem, ampliaram a ocupação e hoje controlam cerca de 70% da Faixa de Gaza.

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