Analistas apontam risco fiscal, cenário eleitoral e juros altos como principais obstáculos para a retomada da bolsa brasileira nos próximos meses
O Ibovespa, principal índice da bolsa de valores do Brasil, encerrou o primeiro semestre com uma alta acumulada de 6,77%, mas o otimismo do início do ano parece ter ficado para trás. Após chegar a superar os 198 mil pontos em abril, o mercado acionário brasileiro engatou uma sequência de quedas, fechando junho com perdas de 1,01% e cotado a 172.024,12 pontos. Segundo Rafael Espinoso, estrategista e portfólio manager da GCB, o impulso inicial foi motivado por múltiplos descontados no Ibovespa, a busca de investidores globais por diversificação e uma animação geral com mercados emergentes. O resultado foi uma entrada líquida recorde de R$ 26,31 bilhões em janeiro na B3. Contudo, o fluxo arrefeceu e, em maio, o mercado registrou a maior saída de recursos desde 2022. Para o segundo semestre, o clima entre os analistas é de ceticismo. David Beker, chefe de Economia no Brasil e Estratégia para América Latina do BofA (Bank of America), avalia que o capital internacional era o principal motor da bolsa, mas houve uma "redução de estrangeiros em todos os ativos".
Beker atribui a mudança de rumo do investidor estrangeiro principalmente ao cenário macroeconômico externo. Fatores como a expectativa de alta de juros nos Estados Unidos, o foco de investimentos em inteligência artificial e a queda nos preços do petróleo pesaram mais que questões domésticas. Para ele, não há no horizonte grandes gatilhos que possam fazer o mercado brasileiro retomar o rali anterior. A política monetária é apontada como um fator crucial por Virgilio Lage, especialista da Valor Investimentos. Uma queda na taxa Selic poderia aumentar o apetite por risco, mas essa realidade parece distante. As projeções do boletim Focus, apuradas pelo Banco Central (BC), indicam que o mercado acredita em uma taxa básica de juros acima de 11% até meados de 2028. Além dos juros, Lage destaca que "permanece o risco com a situação fiscal, as eleições, a desaceleração da economia chinesa e o comportamento das commodities".
A volatilidade do câmbio também gera incerteza. O dólar, que abriu o ano a R$ 5,48 e chegou a ser negociado abaixo de R$ 5, voltou a subir. Emerson Jr, head de Offshore da Convexa Investimentos, reforça a percepção de risco. "Estamos em um período ruim do ponto de vista fiscal, o foco está voltando para isso e há incerteza sobre a eleição", afirma. Apesar do cenário adverso, Rafael Espinoso, da GCB, vê alguns fundamentos que podem favorecer o país, como o múltiplo P/L novamente descontado, um câmbio ainda atrativo para o estrangeiro e um cenário eleitoral apertado.