Cobertura nacional da tríplice viral segue abaixo de 80% e especialistas alertam para risco de surtos diante de casos na América do Sul
O Brasil busca preservar o status de país livre da circulação endêmica do sarampo, recuperado em novembro de 2024, mas enfrenta um desafio significativo na imunização infantil. Nenhum estado brasileiro conseguiu atingir a meta recomendada de 95% de cobertura vacinal com duas doses da tríplice viral em crianças de até 2 anos de idade. No cenário nacional, a imunização completa nessa faixa etária permanece abaixo de 80%, índice considerado insuficiente para bloquear a circulação do vírus. A preocupação das autoridades de saúde aumenta diante do avanço da doença em países vizinhos das Américas, que já somam mais de 20 mil casos. O Peru registra cerca de 3 mil ocorrências e a Bolívia passa por um quadro de descontrole, conforme alertou o diretor do Departamento Nacional de Imunizações (DPNI), Eder Gatti. Em razão dessa conjuntura, o Ministério da Saúde concentra esforços no reforço da vigilância e na intensificação da aplicação da vacina tríplice viral nos municípios que fazem fronteira com o Peru, na região oeste do Amazonas. Em 2026, os melhores índices de cobertura vacinal foram registrados no Paraná (86,76%), Ceará (86,69%) e Minas Gerais (86,05%).
Por outro lado, os percentuais mais baixos ocorreram no Amapá (63,59%), Pará (67,02%), Maranhão (69,66%) e Rio de Janeiro (69,74%). No ano de 2025, os líderes de aplicação foram Paraná (89,92%), Minas Gerais (87,62%), Rondônia (84,56%) e Distrito Federal (84,03%), enquanto Pará (58,25%), Goiás (58,59%) e Amapá (63,02%) anotaram os menores índices. O diretor do DPNI explicou ainda que a cobertura da segunda dose em crianças de até 5 anos alcançou 91% em 2024, patamar também inferior aos 95% desejados. Apesar de o último registro autóctone ter acontecido em junho de 2022 no Amapá, o país contabilizou 39 casos em 2025 e pouco mais de 50 ocorrências em 2026, com a maioria localizada no estado de São Paulo, principalmente na capital. O médico infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), destacou que essas infecções decorrem de casos importados trazidos por viajantes ou estrangeiros. Kfouri apontou que São Paulo permaneceu sete semanas sem novos registros, mas reforçou que a entrada de contaminados é inevitável devido ao fluxo de pessoas nas fronteiras secas, aéreas e rodoviárias. Especialistas explicam que a primeira dose da tríplice viral confere proteção de 94% a 96%, enquanto o esquema completo com duas doses assegura eficácia superior a 97%.
A pediatra Flavia Bravo, diretora da SBIm, alertou que reduções aparentemente pequenas nos índices criam grandes contingentes de pessoas vulneráveis. Nos Estados Unidos, a redução vacinal gerou mais de 3,6 mil casos e cinco mortes em 2026, fazendo com que Nova York declarasse estado de emergência em outubro após registrar mais de uma centena de infectados, cenário impulsionado pelo crescimento de movimentos contrários à imunização e desinformação. Transmitido pelo ar por meio de respiração, tosse e espirros, o sarampo pode provocar complicações graves como otite média aguda, encefalite e pneumonia, além de amnésia imunológica temporária e morte. O Calendário Nacional de Vacinação do Ministério da Saúde prevê a primeira aplicação da tríplice viral aos 12 meses e a segunda aos 15 meses de vida. Pessoas entre 5 e 29 anos não imunizadas devem receber duas doses comprovadas, enquanto a recomendação para a faixa de 30 a 59 anos é de pelo menos uma aplicação.