Neurociência: o que acontece no cérebro ao aprender uma nova habilidade

Especialista explica como o cérebro se reorganiza para criar novos conhecimentos e por que a idade não impede o aprendizado

Aprender a tocar um instrumento, estudar um novo idioma ou desenvolver uma competência digital vai muito além da simples memorização. Cada uma dessas atividades desencadeia uma reorganização funcional do cérebro, fazendo com que diferentes regiões atuem em conjunto para processar informações e estabelecer novos caminhos neurais. Em entrevista à CNN Brasil, a psicopedagoga e diretora do Colégio Sigma, Aline Brito, explicou o que a neurociência sabe sobre esse mecanismo. Segundo ela, quando uma pessoa é exposta a uma experiência inédita, o cérebro se reconfigura. "Diferentes regiões do cérebro passam a trabalhar em conjunto para interpretar informações, estabelecer relações e criar novas conexões entre os neurônios", descreve. Esse fenômeno é chamado de neuroplasticidade, a capacidade que o cérebro tem de se adaptar continuamente. No início, a tarefa exige grande esforço e concentração, pois o circuito neural para executá-la ainda não está formado. Com a prática, as conexões se tornam mais eficientes, a comunicação entre os neurônios é otimizada e a habilidade passa a exigir menos energia mental, parecendo mais natural. A repetição é fundamental nesse processo. Cada vez que uma atividade é praticada, uma rede específica de neurônios é ativada. Quanto mais essa rede é usada, mais forte ela se torna.

"Aprender não significa apenas adquirir conhecimento, mas literalmente transformar a estrutura funcional do cérebro", afirma a psicopedagoga. Contudo, ela ressalta que a repetição mecânica não é a mais eficaz. Estudos mostram que práticas distribuídas ao longo do tempo, com pausas e feedback, geram resultados mais duradouros. Aprender uma habilidade física, como tocar violão, ou intelectual, como um idioma, utiliza o mesmo princípio de neuroplasticidade, mas em áreas distintas do cérebro. Atividades motoras ativam o cerebelo e o córtex motor, enquanto as intelectuais mobilizam áreas de linguagem e memória. "Todas dependem de prática, repetição e integração entre diversas regiões do cérebro. Não existe atalho neurológico", pontua Aline. O sono desempenha um papel crucial na aprendizagem. "Dormir bem faz parte do processo de aprender", reforça a especialista. Durante o descanso, o cérebro reorganiza as informações do dia, fortalece as conexões importantes e descarta o que é menos relevante. É por isso que uma boa noite de sono costuma ser mais produtiva do que estudar durante a madrugada, pois a consolidação da memória ocorre enquanto dormimos.

A crença de que adultos aprendem com mais dificuldade é um mito, segundo a psicopedagoga. Embora a infância seja um período de alta plasticidade cerebral, a capacidade de aprender se mantém. "O cérebro adulto continua capaz de criar novas conexões ao longo de toda a vida", diz Aline. O que muda é o ritmo e o contexto, podendo exigir mais tempo e prática. A emoção também acelera o aprendizado. O interesse e a sensação de conquista liberam dopamina, um neurotransmissor que aumenta a motivação e favorece a atenção e a memória. Por outro lado, o estresse e a falta de propósito prejudicam o processo. Para facilitar a aprendizagem, Aline recomenda hábitos como sono de qualidade, alimentação equilibrada, atividade física, pausas nos estudos e evitar multitarefas e distrações digitais. Para a especialista, mais importante do que escolher uma habilidade específica é "cultivar o hábito permanente de aprender". Seja um idioma, um instrumento ou uma competência profissional, o desafio constante estimula a formação de novas conexões neurais, contribuindo para a saúde cerebral ao longo da vida.

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