Pesquisa mostra que famílias de classe média são as que mais investem em aulas particulares para garantir sucesso escolar e vantagem competitiva para os filhos
A procura por aulas de reforço escolar e outros serviços educacionais registrou um aumento de 52% em agosto de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O dado é de um levantamento da plataforma de serviços GetNinjas, que não detalhou o número absoluto de pedidos. Para Pedro Nazareth, CEO da empresa, o crescimento pode estar relacionado ao início do segundo semestre letivo. Segundo ele, neste período, as dificuldades dos alunos ficam mais evidentes, levando os pais a buscarem tanto a recuperação de notas quanto a preparação para as provas de fim de ano. O fenômeno, conhecido no meio acadêmico como "ensino suplementar" ou "shadow education", vai além da simples recuperação de conteúdo.
Fernando Vizotto Galvão, professor da Faculdade de Educação da Unicamp e pesquisador do tema, explica que o conceito também abrange aulas de idiomas, esportes e artes. Segundo ele, o acesso a essas atividades pagas cria uma desigualdade entre os estudantes. Dados de uma pesquisa do Enem de 2014 indicam que 28% dos participantes haviam feito curso de idiomas, 14% frequentaram cursinho pré-vestibular e 30% realizaram outro tipo de curso durante o ensino médio. De acordo com Galvão, as famílias de camadas médias são as que mais recorrem a esses serviços. O objetivo é garantir uma boa posição social para os filhos através do sucesso escolar.
"As famílias também podem buscar esses serviços para aumentar a vantagem educacional e não necessariamente para remediar um problema", afirma o pesquisador. Outras hipóteses para o aumento da demanda, segundo o professor, incluem a delegação do acompanhamento das tarefas escolares por pais com pouco tempo, a valorização de serviços personalizados e a facilidade de acesso a aulas online. Embora a maioria dos estudos aponte uma melhora no desempenho em provas para quem faz reforço, Galvão alerta para os riscos. O foco excessivo em um exame pode deixar o restante da vida escolar em segundo plano, e a sobrecarga de atividades pode ser prejudicial. Ele também questiona o mérito de bons resultados obtidos por alunos que tiveram acesso a mais recursos, aprofundando a desigualdade social no sistema de ensino.