Partículas 500 vezes menores que um fio de cabelo foram detectadas pelo rover Perseverance e exigirão novos métodos de proteção para missões humanas na década de 2030
Novos dados obtidos pelo rover Perseverance, da NASA, revelaram a presença de partículas de poeira marciana cerca de 500 vezes mais finas que um fio de cabelo humano. O veículo espacial está em operação na Cratera Jezero, no hemisfério norte do planeta, desde seu pouso em 2021, e documentou elementos ultrafinos com aproximadamente 100 nanômetros de largura. O achado traz alertas para a proteção física dos astronautas e para o desenvolvimento de equipamentos em futuras missões tripuladas. As medições foram realizadas pelo Instrumento Planetário para Litoquímica de Raios X (PIXL) do Perseverance, que identificou partículas que aderiram aos componentes do próprio veículo explorador de seis rodas. Além das partículas ultrafinas de 100 nanômetros, o equipamento registrou uma categoria de partículas finas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro, tamanho correspondente a 30 vezes menos que a espessura de um fio de cabelo. Até então, registros anteriores apontavam dimensões de até 3 micrômetros. O cientista planetário Scott VanBommel, da Universidade de Washington em St.
Louis e membro da equipe científica do Perseverance, é o principal autor do estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Segundo VanBommel, elementos menores não significam necessariamente mais perigo, porém possuem capacidade de penetrar de forma profunda no organismo e apresentam maior dificuldade de eliminação. Em determinadas doses, partículas tão reduzidas podem alcançar os pulmões, entrar na corrente sanguínea e atingir órgãos vitais. A análise toxicológica aponta que a poeira de Marte contém sílica, compostos de ferro e derivados de cloro, como o perclorato, substâncias que oferecem riscos conhecidos na Terra conforme a dose e o período de exposição. O rover transporta amostras de materiais candidatos a trajes espaciais para avaliar seu comportamento no ambiente marciano, entre eles a fibra sintética Vectran e o revestimento protetor Teflon, com medidas de cerca de 20 mm de lado. As observações não registraram danos diretos aos tecidos, mas revelaram que o Vectran reteve partículas maiores na parte inferior de sua trama, enquanto o Teflon acumulou menor volume, composto por partículas mais finas. A agência espacial norte-americana planeja enviar seres humanos a Marte a partir da década de 2030.
Diante disso, VanBommel ressaltou que as descobertas vão nortear a escolha de materiais de habitats e trajes, bem como sistemas de limpeza submicrométricos e protocolos toxicológicos. Entre as soluções avaliadas pela instituição estão estações de acoplamento externas e câmaras de descompressão de câmara dupla para barrar a poeira nas áreas de convivência. A experiência anterior da NASA na Lua, durante as missões Apollo entre 1969 e 1972, enfrentou poeira abrasiva e cortante gerada por impactos de micrometeoritos, a qual danificou vedações, arranhou viseiras e provocou sintomas similares à rinite alérgica na tripulação. Em Marte, o cenário físico é distinto: o material se origina de rochas basálticas e sofre desgaste constante por ação dos ventos, o que arredonda suas formas. Portanto, o tamanho reduzido e a composição química são os pontos críticos no planeta vermelho, fatores que devem ser integrados ao planejamento ao lado de variáveis como radiação e distância da Terra.