Tarifa de 25% dos EUA pode custar US$ 11 bi ao Brasil; governo recua de retaliação

Após cogitar medida de reciprocidade, Planalto adota cautela para evitar alta de preços no país. Especialistas e indústria alertam para riscos e pedem negociação diplomática.

Uma nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos a uma série de produtos brasileiros, com entrada em vigor a partir de quarta-feira (22), acendeu o alerta no governo e no setor produtivo. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a medida deve atingir US$ 11 bilhões em exportações do Brasil. A reação inicial do governo brasileiro foi de endurecer o tom. Na terça-feira (14), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo avaliava acionar a Lei de Reciprocidade. No dia seguinte, reforçou que “o país vai se proteger, vai se fazer respeitar”. Contudo, o discurso mudou em poucos dias. Na sexta-feira (17), Durigan recuou e adotou uma postura mais branda. "Não cabe falar em retaliação.

Retaliação é uma palavra que está fora do nosso escopo e está fora do nosso trabalho", declarou o ministro. A mudança de rota partiu de uma orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que pediu estudos de impacto e adotou uma linha de prudência. Conforme apurou a CNN Brasil, a cautela visa evitar uma escalada tarifária por parte dos EUA e, principalmente, impedir o aumento de preços para o consumidor brasileiro. "Vamos com cautela", disse o ministro da Fazenda ao veículo. Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que uma resposta dura do Brasil poderia piorar o cenário. José Niemeyer, economista e professor do Ibmec, destaca a assimetria na relação comercial. "Os EUA são muito mais importantes para o Brasil do que o inverso", afirmou. Dados do governo brasileiro mostram que, nos últimos 15 anos, os Estados Unidos acumularam um superávit comercial de US$ 424,5 bilhões com o Brasil.

Roberto Azêvedo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), não acredita que uma retaliação brasileira reverteria a decisão americana e vê risco de consequências severas, como uma sobretaxação ainda maior. Para ele, o Brasil precisa de mais criatividade nas negociações, pois os EUA não operam na dinâmica de "pedido e oferta". A indústria brasileira manifestou forte preocupação. A CNI classificou a medida como extremamente preocupante. Já a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) cobrou do governo uma negociação "mais efetiva", que seja "dissociada dos componentes políticos e focada na negociação diplomática" para preservar empregos e as relações comerciais. Com a nova alíquota, o Brasil se tornará o segundo país mais tarifado pelos Estados Unidos, atrás apenas da China, com taxas médias superiores a 18%, segundo o Global Trade Alert (GTA). Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, projeta que a medida pode reduzir o fluxo comercial em cerca de US$ 1 bilhão e causar um impacto de aproximadamente 0,03% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

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