O desembarque dos passageiros do cruzeiro MV Hondius começou ainda durante a madrugada deste domingo (10), nas Ilhas Canárias, em uma operação considerada inédita pelas autoridades espanholas. O navio, operado pela empresa holandesa Oceanwide Expeditions, chegou à costa de Tenerife após registrar um surto de hantavírus durante uma expedição iniciada no extremo sul da Argentina. A chegada da embarcação provocou tensão entre moradores da região e colocou o governo espanhol sob pressão diante do risco de uma nova crise sanitária internacional. O esquema montado para o desembarque envolveu militares, equipes médicas e representantes da Organização Mundial da Saúde. Segundo o Ministério da Saúde da Espanha, os passageiros passaram por exames médicos ainda dentro do navio antes de serem retirados em pequenos barcos militares até o porto de Granadilla de Abona. Em seguida, foram levados em ônibus isolados diretamente para o aeroporto de Tenerife Sul, de onde seguiram em voos de repatriação organizados por seus países de origem. O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, afirmou que toda a logística foi desenhada para impedir qualquer contato entre os ocupantes do cruzeiro e a população civil. Espanhóis desembarcaram primeiro. Depois, passageiros de outras nacionalidades foram retirados conforme a disponibilidade de voos internacionais. A operação passou a ser acompanhada pessoalmente pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, que chegou a Tenerife no sábado (9). Em carta aberta divulgada aos moradores das Canárias, Tedros tentou conter o clima de medo que tomou conta da ilha após a confirmação de mortes ligadas ao vírus. “Preciso que me escutem com clareza: isto não é outra covid”, afirmou o dirigente da OMS. Apesar da tentativa de tranquilizar a população, Tedros reconheceu que a cepa identificada no navio é considerada grave e confirmou que três pessoas morreram em decorrência da doença. O MV Hondius havia partido de Ushuaia, na Argentina, no dia 1º de abril, em uma rota turística com destino a Cabo Verde. Durante a travessia, ao menos seis pessoas apresentaram sintomas da hantavirose, doença transmitida principalmente pelo contato com secreções de roedores silvestres infectados. Entre os principais sintomas estão febre alta, dores musculares, fadiga, tontura e problemas respiratórios. Em quadros mais severos, a doença pode provocar comprometimento pulmonar e cardíaco, com rápida evolução clínica. A atracação do navio chegou a ser contestada por autoridades locais das Canárias, preocupadas com impactos sanitários e turísticos. Ainda assim, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez decidiu autorizar a operação após solicitação formal da OMS. Sánchez classificou a decisão como “um dever moral e legal” da Espanha diante da emergência internacional. Após a retirada dos passageiros e tripulantes, o navio seguirá para a Holanda, onde passará por um processo completo de desinfecção supervisionado pelo governo holandês e pela empresa responsável pela embarcação.