O Brasil agora conta com uma escala validada em português para medir o sofrimento psicológico causado pelas mudanças no ambiente em que as pessoas vivem. A ferramenta, chamada BSS-Br (Brief Solastalgia Scale – versão brasileira), foi validada por pesquisadores do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em estudo publicado na revista "Environmental Psychology Research".

A pesquisa, que teve financiamento e coautoria da Natura, define solastalgia como o sofrimento emocional provocado pela transformação negativa do ambiente familiar. Diferente da nostalgia, a angústia é causada pela percepção de que o próprio local onde a pessoa mora está sendo degradado, seja por secas, incêndios, perda de biodiversidade ou outras alterações.

Para validar a escala, os pesquisadores analisaram dados de 1.752 adultos de todas as 27 unidades da federação. A coleta foi realizada pela internet. A escala, que vai de 1 a 5, apresentou uma média de 3,90, o que os autores consideram um indicativo de níveis moderadamente altos de sofrimento ambiental.

O estudo também cruzou os dados com outros indicadores de saúde mental. Na amostra, 44,75% dos participantes atingiram o ponto de corte para sintomas de ansiedade moderada ou mais intensos. Outros 47,83% alcançaram o mesmo limite para sintomas depressivos, e 63,18% apresentaram pontuação indicativa de redução do bem-estar psicológico.

Os pesquisadores, contudo, ressaltam que a solastalgia é uma resposta emocional específica às transformações ambientais e não deve ser confundida com ansiedade ou depressão, embora possa coexistir com esses transtornos. A BSS-Br é uma medida contínua para avaliar diferentes níveis do fenômeno, não para estabelecer um diagnóstico clínico.

A análise identificou níveis mais elevados de solastalgia entre participantes mais jovens, com maior escolaridade e que relataram ter percebido mudanças ambientais recentes. As regiões Sul e Sudeste apresentaram resultados ligeiramente maiores, enquanto o Nordeste teve os menores índices, mas as diferenças regionais foram consideradas sutis.

O trabalho faz parte do Projeto Apoena, uma iniciativa mais ampla que investiga a saúde ecoafetiva. "O que observamos é que experiências relacionadas ao sofrimento ambiental também deixam marcas nesses padrões vocais", explica o professor Lucas Murrins Marques, primeiro autor do estudo, sobre outras frentes da pesquisa. Manuel Rios, diretor executivo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Natura, destacou o caráter multidisciplinar da iniciativa, que busca transformar o fenômeno em evidências para orientar novas formas de promover bem-estar.