O governo da China anunciou nesta terça-feira (27) a condenação à morte de dois ex-ministros da Defesa, Wei Fenghe e Li Shangfu, por acusações de corrupção. A decisão representa um dos momentos mais drásticos da ampla campanha de combate à corrupção liderada pelo presidente Xi Jinping, que já dura mais de uma década e tem como alvo figuras de alto escalão do Partido Comunista e das Forças Armadas.

Segundo a agência de notícias estatal Xinhua, Wei e Li foram considerados culpados por "aceitar quantias enormes de dinheiro em subornos". Como resultado, ambos foram expulsos do Partido Comunista Chinês (PCC), um pré-requisito para que pudessem ser processados criminalmente. As sentenças de morte, no entanto, foram suspensas por um período de dois anos. Na prática do sistema judicial chinês, isso significa que as penas provavelmente serão convertidas em prisão perpétua, desde que os condenados não cometam outras infrações durante esse período.

A queda de Li Shangfu, em particular, já era assunto de especulação internacional. Ele desapareceu da vida pública em agosto de 2023, apenas cinco meses após ser nomeado para o cargo de ministro da Defesa. Sua ausência alimentou rumores sobre uma investigação em andamento, que só foi confirmada oficialmente em outubro do mesmo ano, quando ele foi destituído do posto e também do seu assento na poderosa Comissão Militar Central, o mais alto órgão de comando das Forças Armadas da China, chefiado pelo próprio Xi Jinping.

Investigações apontaram que Li teria se envolvido em atos de corrupção quando chefiava o departamento de desenvolvimento de equipamentos militares, entre 2017 e 2022. Curiosamente, ele já estava sob sanções do governo dos Estados Unidos desde 2018, por sua participação na compra de armamentos russos, incluindo caças Su-35 e sistemas de mísseis S-400.

Seu antecessor, Wei Fenghe, comandou o Ministério da Defesa entre 2018 e 2023. Assim como Li, ele também desapareceu do radar público por vários meses antes do anúncio formal de sua investigação e expulsão do Partido Comunista. As acusações contra ele são semelhantes, focadas em corrupção e abuso de poder. A agência estatal informou que a investigação sobre Wei começou em setembro de 2023.

A punição severa contra dois generais que ocuparam um dos cargos mais importantes do governo chinês envia uma mensagem clara sobre a tolerância zero de Xi Jinping com a corrupção, especialmente em um setor estratégico como o da Defesa. A campanha anticorrupção, iniciada por Xi em 2012, logo após assumir o poder, já resultou na punição de mais de 4 milhões de funcionários do governo e do partido em diversos níveis hierárquicos, segundo dados oficiais do governo chinês.

Para analistas internacionais, a ação também serve para consolidar o poder de Xi Jinping, eliminando rivais e garantindo a lealdade absoluta das Forças Armadas. A limpeza no setor militar se intensificou nos últimos anos e atingiu em cheio a Força de Foguetes do Exército de Libertação Popular, unidade de elite responsável pelo arsenal de mísseis balísticos e nucleares da China. Vários de seus principais comandantes foram substituídos ou desapareceram sob circunstâncias parecidas com as de Wei e Li.

A corrupção nas Forças Armadas é vista por Pequim não apenas como um crime, mas como uma grave ameaça à segurança nacional e à capacidade de modernização militar do país. Ao remover figuras de ponta, mesmo que isso gere instabilidade temporária na liderança, Xi Jinping reforça sua autoridade e sinaliza que ninguém está acima da lei em sua administração. A condenação dos ex-ministros é um capítulo significativo nesse processo contínuo de centralização de poder e reestruturação das forças de defesa da China.