Astrônomos acreditam ter encontrado os vestígios de uma antiga galáxia anã, apelidada de Loki, que teria sido “engolida” pela Via Láctea em seu processo de formação, há cerca de 10 bilhões de anos. A descoberta, publicada na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, se baseia em um grupo de estrelas antigas com características peculiares.

Os pesquisadores analisaram 20 estrelas muito antigas, localizadas a aproximadamente 6.500 anos-luz do Sol. O que chamou a atenção dos cientistas é que esses astros, pobres em metais pesados, orbitam perto do disco da Via Láctea, a região achatada que concentra a maioria das estrelas. Normalmente, estrelas com essa idade e composição são encontradas no halo galáctico, uma estrutura mais esférica e difusa que envolve a galáxia.

Para aprofundar a investigação, a equipe usou dados do Telescópio Canadá-França-Havaí e do telescópio espacial Gaia, da Agência Espacial Europeia. A análise revelou um quebra-cabeça: embora as estrelas tivessem uma assinatura química praticamente idêntica, sugerindo uma origem comum, parte delas girava no mesmo sentido da Via Láctea (movimento prógrado) e outra parte no sentido contrário (retrógrado).

A principal hipótese para explicar essa aparente contradição é uma fusão galáctica ocorrida no passado distante. Usando simulações computacionais, os cientistas testaram o cenário de uma colisão entre uma pequena galáxia e uma Via Láctea ainda em formação. Os modelos indicaram que o evento poderia ter espalhado as estrelas da galáxia menor em diferentes direções, explicando as órbitas opostas observadas hoje.

Essa colisão teria acontecido cerca de 3 bilhões de anos após o Big Bang. A galáxia perdida foi apelidada de Loki, em referência ao deus da mitologia nórdica. “Loki, na mitologia nórdica, é o deus da trapaça e, como um trapaceiro, suas intenções são difíceis de decifrar”, afirmou o astrofísico Federico Sestito, autor principal do estudo, ao portal Live Science.

Os cálculos estimam que Loki possuía uma massa equivalente a 1,4 bilhão de sóis. Embora fosse uma galáxia anã, era grande o suficiente para deixar marcas detectáveis bilhões de anos depois. A composição química das estrelas também sugere que elas são “estrangeiras”, com assinaturas que lembram as de outras galáxias anãs conhecidas, e não as de estrelas típicas da Via Láctea.

A descoberta reforça o modelo de que grandes galáxias, como a nossa, crescem ao incorporar sistemas menores ao longo de bilhões de anos. Os astrônomos já haviam identificado outras fusões, como a da galáxia Gaia-Salsicha-Enceladus. Loki seria mais uma peça nesse quebra-cabeça cósmico.

Os autores do estudo, no entanto, reconhecem as limitações da pesquisa, como a pequena amostra de apenas 20 estrelas. Eles admitem a possibilidade, embora menos provável, de que as estrelas pertençam a dois sistemas diferentes com histórias químicas coincidentemente parecidas. O astrofísico Anirudh Chiti, da Universidade Stanford, que não participou do trabalho, considerou o resultado “intrigante”, mas inconclusivo. A expectativa é que futuros projetos astronômicos, como o WEAVE e o 4MOST, possam confirmar a existência de Loki ao mapear a composição de milhares de outras estrelas.