A imagem de Pompeia como uma cidade aniquilada pela fúria do Monte Vesúvio, onde todos os seus habitantes pereceram, está sendo revista pela ciência. Um estudo detalhado, conduzido pelo Dr. Steven Tuck, professor e chefe do departamento de Estudos Clássicos da Universidade de Miami, em Ohio, revela uma história diferente: a de sobrevivência e resiliência.

Durante anos, Tuck investigou o que chama de "evidência pela ausência" em Pompeia. Cofres de dinheiro vazios, estábulos sem animais e a falta de barcos no porto sugeriam que muitos haviam partido antes do desastre. "Isso não combinava com a história de que todos haviam morrido", afirmou o pesquisador.

Nos últimos dez anos, através do Projeto Sobreviventes de Pompeia, Tuck mergulhou em bancos de dados de inscrições latinas, rastreando nomes de moradores de Pompeia e da cidade vizinha de Herculano. Ele encontrou evidências de sobreviventes em 48 cidades diferentes do Império Romano, provando que a fuga foi uma realidade para milhares de pessoas.

A pesquisa, que será detalhada no livro "Escape From Pompeii", mostra que os destinos dos sobreviventes variaram. Moradores de Pompeia, que possuíam mais recursos e contatos, se espalharam e se adaptaram a novas comunidades, reconstruindo negócios e até mesmo ocupando cargos públicos. Já os sobreviventes de Herculano, em geral mais pobres, tenderam a permanecer mais próximos da região e formaram comunidades mais fechadas entre si.

Tuck conseguiu reconstruir a trajetória de uma mulher que escapou de Pompeia com sua filha e se restabeleceu em Óstia, principal porto de Roma. Lá, ela se casou com um médico do imperador, e sua linhagem continuou por gerações. "Isso muda a narrativa para uma história de sobrevivência, esperança e continuidade. É uma história muito mais humana", explica Tuck.

A erupção do Vesúvio, segundo geólogos como Christopher Jackson, do Imperial College London, foi precedida por terremotos durante quatro dias, mas os moradores não sabiam que viviam à sombra de um vulcão ativo. O relato histórico de Plínio, o Jovem, que testemunhou a catástrofe, descreve uma erupção que ocorreu em cinco fases ao longo de 24 horas, começando com uma chuva de cinzas e terminando com fluxos piroclásticos mortais.

As novas descobertas são tema da série documental "Pompeii: Out of Time", apresentada pelo ator Tom Hiddleston. A produção explora não apenas a fuga, mas também a vida cotidiana de pessoas comuns, um foco de pesquisa de outros especialistas, como a arqueóloga Caitie Barrett, da Universidade Cornell, que estuda as vidas das classes mais baixas e dos escravizados.

A pesquisa em Pompeia continua a revelar detalhes sobre a vida antes e depois da erupção. O trabalho de estudiosos como Tuck e Barrett mostra que, longe de ser apenas um monumento à morte, Pompeia é também um testemunho da capacidade humana de sobreviver e recomeçar diante de desastres naturais.