Uma gravação de 1978 de Milton Nascimento com a banda A Barca do Sol, considerada perdida por 48 anos, foi finalmente lançada em vinil. A obra é a trilha sonora da peça teatral 'As Gralhas', composta e gravada em uma única sessão de seis horas.

A origem do projeto remonta à adaptação de três contos de Franz Kafka (1883-1924) pelo roteirista Bráulio Pedroso. A montagem experimental marcou a estreia na direção do ator Marcos Paulo e foi criada para a inauguração do Teatro do Centro Cultural Candido Mendes, no Rio de Janeiro, que tinha capacidade para cerca de cinquenta pessoas. O elenco contava com o então novato Jorge Fernando.

Na época, a trilha sonora não teve grande repercussão na imprensa e os músicos não se mobilizaram para um lançamento comercial, o que transformou a fita em uma relíquia. A existência da gravação foi ressignificada em 2024, quando o pesquisador Maurício Gouvêa recebeu uma fita cassete do compositor Juca Filho com a inscrição "A Barca do Sol + Milton Nascimento".

"Eu fiquei louco, primeiro porque eu adorava A Barca do Sol e segundo porque Milton Nascimento é o grande farol da minha vida musical", relatou Gouvêa em entrevista à VEJA. Juca, amigo dos integrantes da banda, havia guardado a cópia por décadas.

A Barca do Sol, um grupo de rock progressivo, foi convidada por Marcos Paulo para criar a trilha. Inicialmente, a cantora Olivia Byington, namorada do diretor na época, participaria do projeto. Com o rompimento do casal, ela deixou a produção e Milton Nascimento foi convidado para substituí-la.

O trabalho de composição, liderado por Nando Carneiro, membro da banda, buscou traduzir musicalmente as histórias de Kafka. Segundo Gouvêa, uma das faixas usa flautas de David Ganc para emular o som de gralhas. Na música "O Camponês", o piano e os vocais de Milton Nascimento expressam a angústia do personagem. Para o pesquisador, a gravação registra o cantor em "sua plenitude vocal".

Durante a mobilização para o relançamento, Gouvêa contatou os músicos para obter autorização e fez uma nova descoberta. O baixista Alain Pierre possuía fitas de rolo originais da gravação, com qualidade de som superior à do cassete e uma faixa inédita.

O material foi remasterizado pela Fábrica Rocinante e está sendo lançado em vinil pela loja on-line Três Selos Rocinante, trazendo à luz um capítulo esquecido da música brasileira após quase cinco décadas.