O recente conflito contra o Irã expôs uma vulnerabilidade crítica na máquina de guerra dos Estados Unidos: a rápida diminuição de seus estoques de armamentos cruciais e a dificuldade em reabastecê-los. A situação acendeu um alerta no Pentágono sobre a capacidade do país de sustentar um conflito de alta intensidade e se preparar para futuras disputas com adversários como a China.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, solicitou ao Congresso um orçamento recorde de US$ 1,5 trilhão para 2027, afirmando que "a melhor maneira de criar a paz é preparar-se para a guerra". No entanto, durante uma audiência no Senado, Hegseth enfrentou questionamentos sobre o uso exaustivo de armamentos na guerra contra o Irã e a lenta reposição dos arsenais.

Segundo Benjamin Freeman, diretor do Instituto Quincy, o problema não é a falta de recursos, mas a aplicação inadequada. "O orçamento já supera, somados, os gastos militares dos oito países que vêm a seguir na lista", disse ele ao GLOBO. "Os planejadores militares não têm aplicado esses recursos de forma adequada em iniciativas que realmente contribuam para a segurança dos EUA e de aliados."

O impacto mais significativo foi observado nos estoques do sistema de mísseis Patriot. De acordo com o Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), o número de unidades disponíveis caiu de 2.330 antes da guerra para menos de 830 em julho. A estimativa do CSIS é que os estoques só retornem ao nível pré-guerra em meados de 2029. Outros armamentos, como os mísseis de cruzeiro Tomahawk, podem levar até cinco anos para serem repostos.

O coronel da reserva Paulo Filho explica que, após a Guerra Fria, a indústria de defesa se adaptou a conflitos menores e de baixo consumo. "A indústria passou a operar com encomendas menores e ciclos de produção adequados a guerras limitadas, e não a conflitos prolongados e de alto consumo de munições", afirmou. O choque de realidade veio com a guerra na Ucrânia, que demonstrou o retorno dos conflitos convencionais de alta intensidade.

Outro ponto de vulnerabilidade é a guerra com drones. Um relatório de 2025 do Centro para uma Nova Segurança Americana (CNAS) já alertava que os EUA não estavam preparados, destacando o uso de "mísseis multimilionários" para interceptar aeronaves de baixo custo. A ofensiva contra o Irã confirmou essa deficiência, exigindo um uso extremo dos sistemas de defesa.

Apesar de o presidente Donald Trump negar os problemas, a imprensa americana relata que a baixa nos estoques foi um fator crucial na decisão de não escalar a guerra contra o Irã. Paulo Filho pondera que, embora não se possa afirmar que os EUA estão vulneráveis diante da China, a situação representa "uma vulnerabilidade específica e circunstancial". Para ele, "um importante sinal de alerta foi aceso no Pentágono".