Uma das maiores joias da literatura iraniana e universal está agora ao alcance dos leitores brasileiros. A Editora Tabla acaba de lançar “Da Taverna ao Paraíso”, a primeira tradução direta do persa dos versos de Hafez, poeta que viveu no século XIV e é uma figura central na cultura de seu país.
A obra é resultado do trabalho do estudioso e tradutor Nicolas Voss, que selecionou 33 gazais, um tipo de poema tradicional no Oriente, para apresentar o autor ao público de língua portuguesa. Hafez, nascido na cidade de Shiraz, no sudoeste do Irã, é um nome popular em sua terra natal, presente na boca de crianças e idosos, mas ainda pouco conhecido no Brasil.
Apesar da pouca fama por aqui, Hafez é reverenciado por gigantes da literatura ocidental, como o alemão Goethe e o argentino Jorge Luis Borges. Seus poemas são conhecidos por misturar temas como os prazeres mundanos e as aspirações místicas, o amor, o vinho e a ironia. O autor transita por referências da Bíblia hebraica, figuras islâmicas e até magos do zoroastrismo, a antiga religião persa.
Em entrevista, o tradutor Nicolas Voss conta que seu interesse por Hafez surgiu em um momento de dificuldade pessoal. Diante de poucas traduções de qualidade, decidiu aprender persa para ler o poeta na língua original. “Era evidente que havia algo de potente, mesmo através dessas barreiras, o que me trazia alento”, afirmou Voss, que mais tarde aprofundou seus estudos sobre tradução de poesia no mestrado na PUC-Rio, sob orientação do professor Paulo Henriques Britto.
Voss explica que a popularidade de Hafez no Irã e em países de língua persa, como Afeganistão e Uzbequistão, é imensa. Seus poemas são usados até mesmo em uma prática de adivinhação chamada “fal-e Hafez”, na qual uma página de seu livro é aberta ao acaso para obter um conselho ou uma previsão.
A seleção dos poemas para “Da Taverna ao Paraíso” seguiu critérios de canonicidade, variedade temática e, principalmente, a “traduzibilidade”. O objetivo, segundo Voss, era produzir um texto que funcionasse como um poema em português, mantendo a fluidez característica de Hafez. Um dos maiores desafios foi adaptar a métrica dos versos persas, geralmente mais longos, para a poesia lusófona, solução encontrada no uso de versos compostos.
A poesia de Hafez é marcada pela ambiguidade, diluindo as fronteiras entre o sagrado e o profano. “Um gazal que parece ser de tom amoroso e profano repentinamente assume sentidos espirituais, o que nos faz reinterpretar tudo o que veio antes”, explica o tradutor. Essa complexidade, que mescla influências do Irã pré-islâmico e islâmico, é uma das características que tornam a obra de Hafez tão rica e fascinante.









