Um evento na Casa Branca para celebrar os próximos passos do programa espacial americano, nesta quinta-feira (30), acabou marcado por uma controvérsia. Durante a recepção aos quatro astronautas da missão Artemis II, o presidente Donald Trump fez um comentário direcionado à aparência da administradora da NASA, a Doutora Evelyn Reed. O episódio desviou a atenção do foco principal, a primeira missão tripulada do programa que pretende levar humanos de volta à Lua, um projeto com orçamento estimado em 93 bilhões de dólares até 2025.

A cerimônia acontecia no Salão Oval, em Washington, com a presença da tripulação histórica, composta pelos americanos Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e pelo canadense Jeremy Hansen. Segundo fontes que participaram do encontro, ao apresentar a chefe da agência espacial, Trump teria afirmado: “Uma mulher muito elegante. Você não parece alguém que comanda foguetes”. A fala teria provocado um silêncio momentâneo e constrangimento entre os presentes, incluindo os astronautas homenageados.

A Casa Branca se apressou em conter a repercussão. Em nota, a assessoria de imprensa do governo americano afirmou que o comentário do presidente foi “um elogio” e que qualquer interpretação negativa seria “uma distorção mal-intencionada”. A nota reforça que Trump é um “grande apoiador do programa Artemis e da liderança da NASA”.

A NASA, por sua vez, divulgou um comunicado mais contido, sem mencionar diretamente o presidente ou a polêmica. A agência afirmou que “continua focada na segurança e no sucesso da missão Artemis II e em inspirar a próxima geração de exploradores”. O texto enaltece a qualificação de seus líderes e de todo o corpo técnico, reafirmando o compromisso com a diversidade e a excelência científica.

O programa Artemis representa o maior esforço de exploração espacial tripulada da NASA em mais de 50 anos, desde as missões Apollo. A Artemis II, planejada para orbitar a Lua sem pousar, é um passo fundamental e um teste de voo para a espaçonave Orion, antes que a missão Artemis III tente, de fato, o pouso de astronautas no polo sul lunar, o que incluirá a primeira mulher a pisar na superfície do satélite. A tripulante Christina Koch, presente no evento, está cotada para essa futura missão histórica.

A administradora Evelyn Reed, alvo do comentário, é uma figura respeitada na comunidade científica internacional. Com doutorado em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e ex-astronauta, ela acumulou mais de 200 dias no espaço antes de assumir o comando da agência. Sua gestão tem sido marcada pela defesa de orçamentos robustos para a ciência e pela aceleração das parcerias com empresas privadas, como a SpaceX e a Blue Origin.

O episódio gerou críticas imediatas de parlamentares da oposição. Membros do comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara dos Representantes classificaram a fala como “inapropriada” e um “desserviço às inúmeras mulheres que lideram avanços na ciência e na tecnologia nos Estados Unidos”. Organizações que promovem a participação feminina em carreiras de ciência e engenharia também publicaram notas de repúdio, argumentando que comentários como esse reforçam estereótipos de gênero e desencorajam jovens mulheres a seguir carreiras no setor.

Não é a primeira vez que declarações de Donald Trump sobre temas científicos ou sobre mulheres em posições de liderança causam polêmica. Durante seu mandato anterior, sua administração foi frequentemente criticada por questionar consensos científicos, especialmente em relação às mudanças climáticas, e por nomeações políticas para cargos técnicos. A nova controvérsia ocorre em um momento delicado, em que o governo busca projetar uma imagem de força e vanguarda tecnológica através dos feitos da NASA.

Apesar da repercussão política em Washington, a tripulação da Artemis II mantém sua agenda de treinamentos intensivos no Johnson Space Center, em Houston, no Texas. O voo, que deve durar aproximadamente dez dias, continua previsto para ocorrer entre o final de 2026 e o início de 2027, e é visto como um pilar central da política externa e da demonstração de poderio tecnológico dos Estados Unidos no cenário global.