A corrida espacial não é mais a mesma. O que antes era uma disputa de poder entre nações, agora se transformou em um campo de batalha comercial trilionário, com empresas privadas na linha de frente. O maior expoente dessa nova era, a SpaceX de Elon Musk, prepara-se para o que pode ser o maior IPO da história, consolidando a transição da exploração do cosmos de uma aventura científica para uma nova fronteira do capitalismo.

Em maio de 2026, a SpaceX revelou seu prospecto para abrir capital na bolsa, com uma oferta inicial de pelo menos 80 bilhões de dólares e estreia prevista para junho na Nasdaq. A cifra supera recordes da petroleira saudita Aramco e da gigante chinesa Alibaba. A empresa, que já atingiu o valor de 1,25 trilhão de dólares após se fundir com a xAI, de inteligência artificial, planeja usar os recursos para expandir suas operações de forma ambiciosa.

A trajetória de Musk no setor começou em 2002, sob forte ceticismo. Após três tentativas fracassadas que quase o levaram à falência, o foguete Falcon 1 tornou-se, em 2008, o primeiro de uma empresa privada a alcançar a órbita. Anos depois, Musk revolucionou o setor com o Falcon 9, um foguete capaz de retornar à Terra e pousar para ser reutilizado, reduzindo drasticamente os custos de lançamento.

Hoje, o faturamento da SpaceX é sustentado por contratos governamentais com a Nasa, o Pentágono e agências de inteligência americanas. No entanto, o futuro vislumbrado pela empresa vai muito além. O plano é usar o foguete superpesado Starship para realizar milhares de voos anuais, viabilizando negócios como mineração de asteroides, viagens hipersônicas na Terra e o lançamento de dezenas de satélites Starlink por missão. A Starlink, que fornece internet de alta velocidade, já conta com 10 milhões de clientes e representou 60% da receita de 18,7 bilhões de dólares da empresa em 2025.

A virada do setor ocorreu em 2011, com o fim do programa de ônibus espaciais da Nasa. A agência passou a contratar serviços de empresas privadas, o que fez os custos de lançamento caírem até 70% e impulsionou o surgimento de uma nova indústria. Segundo o World Economic Forum, a economia espacial deve saltar de 600 bilhões de dólares para 1,8 trilhão até 2035. "Tudo na economia espacial é estratosférico: os custos, os riscos e também o potencial de lucros", afirma Luigi Scatteia, sócio da consultoria PwC.

A concorrência também é bilionária. Jeff Bezos, com sua empresa Blue Origin, fundada em 2000, possui um contrato de 3,4 bilhões de dólares da Nasa para desenvolver um módulo de pouso lunar. A China também entrou na disputa, incentivando o capital privado desde 2014 e já contando com cerca de 600 empresas no setor, como a LandSpace e a Space Pioneer, que buscam replicar a tecnologia de foguetes reutilizáveis.

O grande objetivo comum é a Lua, especialmente seu polo sul, rico em recursos como hélio-3, um isótopo raro com potencial para ser usado como combustível para fusão nuclear. A empresa americana Interlune, por exemplo, já tem um contrato de 300 milhões de dólares para fornecer o gás extraído da superfície lunar. "Quem impulsionar a economia lunar poderá definir os padrões de posicionamento, navegação e tempo", aponta Dean Cheng, pesquisador do Space Policy Institute.

O Brasil tenta garantir um lugar nesse mercado. Com o Centro de Lançamento de Alcântara e um polo aeroespacial em São José dos Campos (SP), o país tem potencial, mas enfrenta desafios orçamentários. A Agência Espacial Brasileira (AEB) tem um orçamento de 139 milhões de reais em 2026, um valor modesto diante dos bilhões do setor privado. A aposta é o Microlançador Brasileiro (MLBR), desenvolvido pela Cenic Engenharia, para inserir o país no mercado global de lançamento de pequenos satélites.