A eleição presidencial no Peru caminha para uma longa batalha judicial. Com mais de 98% das atas apuradas, a candidata conservadora Keiko Fujimori assumiu a liderança com uma vantagem de pouco mais de mil votos sobre o esquerdista Roberto Sánchez. O resultado, contudo, está longe de ser final. Cerca de 1.600 atas, que representam aproximadamente 400 mil votos, foram encaminhadas para análise no Júri Nacional de Eleições (JNE), o que deve levar semanas.

Segundo os dados do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), Fujimori aparece com 50,003% dos votos válidos, contra 49,997% de Sánchez. A virada da candidata ocorreu na noite de quarta-feira, impulsionada pela contagem dos votos de peruanos que vivem no exterior. Em um universo de 18 milhões de eleitores, a diferença é mínima e a decisão está nas mãos da justiça eleitoral.

A maior parte das cédulas contestadas tem origem na região metropolitana de Lima, principal base eleitoral de Fujimori. O complexo sistema eleitoral peruano, que envolve o ONPE para a contagem inicial e o Júri Eleitoral Especial (JEE) para resolver controvérsias locais, culmina na validação final pelo JNE, tornando o processo lento em disputas acirradas.

Enquanto ambos os candidatos pediram calma aos seus eleitores, Roberto Sánchez endureceu o discurso e solicitou uma reunião com observadores internacionais da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia para discutir o que chamou de “acontecimentos estranhos, incomuns e questionáveis”.

A equipe de Sánchez formalizou ações para anular os votos de 1.750 seções eleitorais no Peru, principalmente em Lima, e de outras 657 seções nos Estados Unidos, alegando irregularidades e transporte indevido das cédulas.

O governo peruano, por sua vez, rechaçou as suspeitas. O ministro das Relações Exteriores, Carlos Pareja, afirmou em coletiva de imprensa que não houve irregularidades nos votos do exterior. Segundo ele, observadores internacionais concluíram que a eleição transcorreu sem problemas significativos.

Keiko Fujimori, que em 2021 levantou acusações de fraude ao ser derrotada por Pedro Castillo, desta vez afirmou que o pleito foi transparente. “Acho que isso dá à eleição credibilidade, tranquilidade e a confiança dos cidadãos”, declarou, ressaltando que aguardará o resultado final antes de qualquer pronunciamento definitivo.

Esta é a quarta disputa de segundo turno consecutiva de Fujimori, que perdeu as duas últimas por margens estreitas. Sánchez é considerado o herdeiro político de Castillo, que atualmente está preso. O mercado financeiro reagiu positivamente à liderança da candidata conservadora, com a bolsa peruana fechando em alta de 3,94% e a moeda local, o sol, se valorizando frente ao dólar.