Uma intensa onda de calor atinge a Europa desde 18 de junho, levando países como França, Espanha, Itália e Reino Unido a registrarem temperaturas superiores a 40°C. Segundo uma análise preliminar do ClimaMeter, grupo de pesquisadores ligado ao Instituto Pierre-Simon Laplace, na França, o avanço da mudança climática elevou a temperatura do episódio entre 2°C e 4°C acima do que seria esperado.

A situação levou autoridades a tomar medidas de emergência. Na França, 58 departamentos entraram em alerta máximo. No Reino Unido, o Met Office, serviço meteorológico britânico, emitiu um alerta vermelho para temperaturas que representam risco até mesmo para pessoas saudáveis.

Os cientistas explicam que a configuração meteorológica não é inédita. Uma área de alta pressão, conhecida como “bloqueio ômega”, ficou estacionada sobre a Europa Ocidental, trazendo massas de ar quente e impedindo a formação de nuvens. A diferença, segundo os pesquisadores, é que esse padrão agora ocorre em um planeta já aquecido, o que aumenta drasticamente a intensidade dos seus efeitos.

Dados apontam que a Europa está entre as regiões que mais aquecem no planeta. De acordo com informações citadas pela revista The Economist, a temperatura média do continente sobe cerca de 0,56°C por década, aproximadamente o dobro da média mundial. Entre os motivos estão o chamado efeito de amplificação polar, onde a perda de gelo aumenta a absorção de calor, e a redução da poluição do ar, que permite maior incidência de radiação solar.

O aumento das ondas de calor tem um impacto direto e severo sobre a saúde pública. Durante a onda de calor de 2003, mais de 70 mil mortes associadas às altas temperaturas foram registradas em 16 países europeus. Em 2022, considerado o verão mais quente da história do continente, as estimativas apontaram mais de 60 mil mortes em 35 países. No ano de 2023, o número ficou próximo de 50 mil.

Um estudo de 2024, liderado por Elisa Gallo, do Instituto de Saúde Global de Barcelona, estimou que, sem as medidas de adaptação adotadas pelos países, o número de mortes em 2023 poderia ter chegado a 90 mil.

A infraestrutura também sofre com o calor extremo. Em algumas regiões, escolas foram fechadas, operações de trens foram afetadas e redes elétricas enfrentaram picos de demanda pelo uso de ar-condicionado e sistemas de refrigeração.

Para Friederike Otto, cientista climática do Imperial College London, o principal efeito da mudança climática é a capacidade de tornar padrões meteorológicos já conhecidos em eventos muito mais extremos. "Os eventos de calor estão se tornando mais frequentes, mais intensos e mais longos", afirmou Will Lang, do Met Office. Especialistas avaliam que, embora a adaptação esteja em curso, ela não acompanha o ritmo de agravamento dos fenômenos climáticos.