Em um movimento de bastidores que poderia ter alterado a geopolítica do Oriente Médio, o governo do Irã apresentou uma proposta sigilosa à administração de Donald Trump. A oferta, que acabou sendo rejeitada pela Casa Branca, previa a garantia de livre passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, um dos pontos mais estratégicos do comércio mundial de energia, em troca do adiamento por tempo indeterminado das negociações sobre o programa nuclear iraniano.

A proposta iraniana foi uma tentativa de contornar a asfixiante política de "pressão máxima" imposta por Washington. O ponto central da oferta era garantir a segurança no Estreito de Ormuz, a foz do Golfo Pérsico por onde transita cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta. A ameaça de fechamento do estreito é uma carta estratégica que Teerã frequentemente utiliza em momentos de alta tensão, com potencial para disparar os preços globais do petróleo e gerar uma crise energética.

Em contrapartida por essa garantia, o Irã pedia que a questão do seu programa nuclear fosse, na prática, congelada. A ideia era suspender o debate sobre enriquecimento de urânio e inspeções internacionais, temas que opõem o país persa às potências ocidentais há décadas. Para o governo iraniano, seria uma forma de ganhar fôlego econômico e político sem ceder completamente às exigências americanas.

O pano de fundo para essa negociação secreta foi a decisão unilateral de Donald Trump, em maio de 2018, de retirar os Estados Unidos do acordo nuclear de 2015, conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA). O pacto, assinado também por China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha, limitava as atividades nucleares do Irã em troca do alívio de sanções econômicas.

Ao abandonar o acordo, Trump argumentou que ele era "desastroso" e não impedia o Irã de desenvolver armas nucleares no futuro, além de não abordar o programa de mísseis balísticos do país nem sua influência em conflitos regionais. A partir daí, os EUA reinstauraram e intensificaram sanções com o objetivo de zerar as exportações de petróleo iraniano e forçar Teerã a negociar um novo acordo, muito mais restritivo.

Fontes diplomáticas indicam que a proposta de liberar o trânsito em Ormuz foi vista pela ala mais dura do governo Trump, incluindo o então secretário de Estado, Mike Pompeo, como uma manobra diversionista. A avaliação em Washington era que a oferta não resolvia as questões fundamentais. Os Estados Unidos queriam uma renegociação completa que incluísse não apenas o programa nuclear, mas também o desenvolvimento de mísseis e o apoio do Irã a grupos como o Hezbollah, no Líbano, e os Houthis, no Iêmen.

A recusa americana em aceitar a proposta manteve o cenário de confronto. A rejeição ao acordo informal foi seguida por um período de escalada militar na região do Golfo. Aconteceram ataques misteriosos a navios petroleiros, a derrubada de um drone americano de vigilância pelo Irã e ataques a instalações de petróleo na Arábia Saudita, atribuídos a forças apoiadas por Teerã. Cada incidente elevava o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Para a Casa Branca, aceitar adiar o debate nuclear seria visto como um sinal de fraqueza e uma vitória para o regime iraniano. A estratégia de "pressão máxima" dependia da percepção de que não haveria alívio sem uma capitulação iraniana completa. O cálculo era que o colapso econômico forçaria o Irã a voltar à mesa de negociações em uma posição muito mais frágil.

Do lado iraniano, a proposta representava um cálculo de risco. Garantir a segurança do Estreito de Ormuz aliviaria a pressão internacional e poderia dividir o bloco de países que apoiava as sanções americanas, especialmente as nações europeias, mais dependentes da estabilidade energética e ainda defensoras do acordo original de 2015.

A revelação dessa oferta e de sua subsequente rejeição expõe a complexidade da diplomacia na região. O episódio mostra um caminho alternativo que não foi seguido, onde uma potencial desescalada em uma área vital para a economia global foi trocada pela continuidade de uma política de confronto direto. A consequência foi a manutenção de um ambiente de alta instabilidade que perdurou por todo o restante do mandato de Trump, com impactos diretos na segurança marítima e no mercado de energia.