O papa Leão XIV fez um apelo contundente aos líderes mundiais nesta quinta-feira (11), pedindo um tratamento mais humano para os migrantes. Durante uma visita às Ilhas Canárias, na Espanha, um dos principais pontos de chegada de refugiados na Europa, o pontífice alertou que a história condenará aqueles que se mantiverem indiferentes ao sofrimento de pessoas que fogem da guerra e da pobreza.

Em um discurso que chamou de "apelo à consciência" dos políticos, Leão XIV, o primeiro papa dos Estados Unidos, afirmou que "a dignidade humana não tem passaporte e não perde seu valor ao cruzar uma fronteira". A fala ocorreu no Porto de Arguineguin, em Gran Canaria, local que ficou conhecido como "Cais da Vergonha" após cerca de mil migrantes ficarem retidos em condições precárias no início da pandemia.

"Não podemos nos acostumar a contar os mortos", disse o papa a milhares de fiéis. "Que a história não nos acuse de transformar a dor daqueles que sofrem em uma cena comum em nossas costas. Cedo ou tarde, saberemos se protegemos a vida ou se cedemos à indiferença."

Durante o evento, que contou com a presença de ONGs que auxiliam migrantes, o pontífice ouviu relatos de voluntários. Um deles foi o capitão de barco de resgate Tito Villarmea, que afirmou ter salvado cerca de 20 mil pessoas no mar em 18 anos. "É um número que me deixa doente e que não se pode esquecer", disse o capitão.

O papa também ouviu o depoimento de uma mulher nigeriana que sobreviveu ao tráfico de pessoas e a abusos sexuais na tentativa de chegar à Europa. "Vivi em condições que não desejaria a ninguém", contou. Em resposta, Leão XIV declarou: "Queridos migrantes, antes de dizer qualquer outra coisa, quero me curvar diante da sua dignidade. Vocês não são apenas números ou arquivos. Vocês são pessoas".

As Ilhas Canárias, localizadas a mais de mil quilômetros da Espanha continental, registraram um número recorde de 46.843 migrantes irregulares em 2024, um salto expressivo em comparação com menos de mil em 2015, segundo dados oficiais. A ONG Caminando Fronteras estima que mais de três mil pessoas morreram em 2025 tentando fazer a travessia.

O pontífice exigiu a criação de "vias legais e seguras para a imigração", além de maior cooperação internacional contra o tráfico de pessoas e mais financiamento para o resgate de migrantes no mar. "Não basta gerenciar as chegadas, divulgar estatísticas, reforçar as fronteiras ou lamentar as mortes depois que elas já ocorreram", afirmou.

A Espanha tem adotado uma postura mais aberta em relação à imigração, com um programa para conceder residência a mais de meio milhão de pessoas sem documentos. A medida, contudo, enfrenta críticas de líderes da ultradireita, enquanto o país lida com a lentidão para regularizar a situação de milhares de pessoas.