O número oficial de mortos após os dois terremotos que atingiram a Venezuela na última quarta-feira subiu para 1.719, segundo a contagem mais recente das autoridades. Contudo, especialistas em desastres alertam que o número real de vítimas pode ser muito maior, com projeções indicando um total superior a 10 mil.

Analistas afirmam que são necessárias várias semanas para obter um panorama completo após catástrofes dessa magnitude. Os indícios que chegam da Venezuela sugerem que os tremores foram particularmente letais. "Infelizmente, veremos o número de mortos continuar a subir", afirmou Ilan Kelman, professor de desastres e saúde na University College London, na segunda-feira.

A projeção mais sombria, mas considerada plausível por Kelman, foi divulgada pelo Serviço Geológico dos EUA (USGS). O órgão calcula o potencial de vítimas com base na magnitude do tremor, densidade populacional e a qualidade da infraestrutura local.

Emily So, professora de engenharia arquitetônica na Universidade de Cambridge, também prevê um aumento significativo no número de vítimas. Ela cita o elevado número de desaparecidos, a extensão dos danos visíveis nos mais de 100 edifícios que desabaram e as dificuldades de acesso às áreas mais atingidas. "Tragicamente, enquanto os corpos não forem resgatados debaixo dos escombros, a contagem permanecerá baixa", disse.

A demora na contagem final se deve a vários fatores. Nos primeiros dias, a prioridade das equipes de resgate é encontrar sobreviventes, não recuperar corpos. O trabalho de vasculhar os escombros é lento e dificultado pela quantidade de edifícios destruídos, que podem chegar a dezenas de milhares segundo algumas estimativas.

Outro fator que deve agravar a contagem é o estado do sistema de saúde venezuelano, que já operava no limite de sua capacidade antes da tragédia. Segundo o professor Kelman, muitas vítimas feridas podem não resistir devido à falta de atendimento adequado.

As operações de socorro enfrentam obstáculos como o trânsito na principal rodovia de acesso a La Guaira, o estado mais atingido, além da falta de maquinário pesado e de suprimentos médicos. A professora So explica que, embora vizinhos e familiares resgatem muitos sobreviventes, o colapso de edifícios de concreto armado torna o resgate manual quase impossível.

Para os especialistas, a principal causa do alto número de vítimas está nos padrões de construção precários. Engenheiros estruturais apontam que muitos dos prédios que desabaram eram feitos de concreto frágil, sem o reforço de aço necessário. "Nenhum edifício deveria ter desabado naqueles terremotos. Dispomos de todo o conhecimento, a ciência e a engenharia necessários para construir em zonas sísmicas sem que um terremoto resulte em um desastre catastrófico", concluiu Kelman.