O resultado de uma guerra pode ser decidido no solo, literalmente. Uma pesquisa inovadora, com a participação de estudiosos da Unesp, cruzou dados de 17 mil conflitos, da Antiguidade ao século 21, para mostrar como o tipo de terreno é um fator estratégico crucial, capaz de determinar vencedores e perdedores. O estudo combina geopolítica e pedologia, a ciência do solo, para analisar o impacto da terra nas batalhas.

Um dos exemplos mais emblemáticos é a Batalha de Waterloo, em 1815. Napoleão Bonaparte foi forçado a adiar seu ataque contra o exército britânico por causa de uma forte chuva na noite anterior. O campo de batalha virou um lamaçal, dificultando a movimentação da artilharia e da cavalaria francesa. Os projéteis dos canhões perdiam força ao se prenderem na lama, em vez de ricochetear. A dificuldade de locomoção deu aos britânicos, posicionados em terreno mais alto, o tempo necessário para consolidar suas defesas e garantir a vitória.

Publicada na revista Total Environment Advanced, a pesquisa é a primeira a aprofundar a natureza e a classificação dos solos em contextos de guerra. "Na ciência do solo, frequentemente discutimos os modos pelos quais as guerras resultam em danos ao solo. Mas raramente nos questionamos sobre como o próprio solo ajuda a moldar as guerras", afirma Gian Franco Capra, professor da Universidade de Sassari e primeiro autor do artigo.

Segundo os pesquisadores, as propriedades do solo afetam diretamente a movimentação de tropas, o abastecimento, a estabilidade de fortificações, a camuflagem e até a disseminação de doenças. "O solo não decide onde as guerras começam, mas ajuda a determinar como elas se desenvolvem e qual será o seu custo humano e ambiental", pontua Capra.

Rafael Barroca Silva, doutor pela Unesp e coautor do estudo, explica que os solos de Waterloo, ricos em argila (luvissolos e cambissolos), foram péssimos para os soldados de Napoleão. Curiosamente, esses mesmos solos são férteis e cobiçados para a agricultura, sendo palco de quase 20% dos conflitos analisados no levantamento.

Em contraste, os solos firmes da Mesopotâmia (neossolos flúvicos) permitiram a construção de fortificações e o avanço de carruagens militares, sendo vitais para a expansão das civilizações da Idade do Bronze. No Vietnã, durante as guerras contra japoneses, franceses e norte-americanos, os argissolos e o terreno de floresta tropical deram uma vantagem estratégica aos vietnamitas, que conheciam a região, enquanto as tropas americanas chegavam a usar aditivos para estabilizar o solo.

O estudo também aborda um importante conflito sul-americano. Antonio Ganga, professor da Universidade de Sassari e coautor, destaca a Guerra do Paraguai (1864-1870). "As campanhas ao longo dos rios Paraguai e Paraná foram profundamente condicionadas por solos mal drenados, sujeitos a inundações e áreas alagadiças", explica. A lama dificultava o avanço das tropas e da artilharia, além de contribuir para a exaustão e o espalhamento de doenças. "A Guerra do Paraguai surge como um exemplo sul-americano marcante de como o solo pode atuar na guerra como um protagonista silencioso, mas decisivo", diz Ganga.

A pesquisa também mostra a relação entre o solo e a saúde dos soldados. Na Guerra da Crimeia, no século 19, a bactéria causadora do tétano, presente no solo russo, foi responsável por um grande número de mortes, superando as baixas em combate direto. Mais recentemente, na Primeira Guerra do Golfo, as tropas iraquianas incendiaram poços de petróleo no Kuwait, contaminando o solo e transformando-o em um legado tóxico e um obstáculo militar.

Os pesquisadores reconhecem uma perspectiva eurocêntrica nos dados históricos disponíveis, o que limita informações sobre conflitos nas Américas, África e Oceania. Ainda assim, o trabalho reforça a necessidade de proteger os solos, não apenas por razões ambientais, mas também estratégicas. "Qualquer discussão séria sobre reconstrução, segurança alimentar ou ação climática em áreas que estão em situação de pós-conflito precisa colocar a recuperação dos solos no centro das estratégias", conclui Capra.