Robert Edward "Ted" Turner III, o visionário e polêmico empresário que fundou a Cable News Network (CNN) e inaugurou a era do jornalismo 24 horas, morreu aos 85 anos. A informação foi confirmada por sua família. Turner enfrentava há anos uma batalha contra a demência por corpos de Lewy, uma doença neurodegenerativa, condição que ele mesmo tornou pública em 2018.
Sua morte encerra um capítulo fundamental na história da mídia e da comunicação. Com uma aposta ousada e um investimento inicial de US$ 100 milhões, Turner lançou a CNN em 1º de junho de 1980, a partir de Atlanta, nos Estados Unidos. Na época, a ideia de um canal dedicado exclusivamente a notícias, dia e noite, foi recebida com ceticismo pela indústria, que apelidou a empreitada de "Chicken Noodle Network" (Rede do Macarrão com Frango), prevendo um fracasso iminente.
A desconfiança, no entanto, deu lugar à admiração. A CNN não apenas sobreviveu, como redefiniu o consumo de informação no planeta. O ponto de virada veio com coberturas ao vivo e ininterruptas de eventos globais, como o desastre da nave espacial Challenger em 1986 e, principalmente, a Guerra do Golfo em 1991. As transmissões diretas de Bagdá, sob bombardeio, consolidaram a CNN como uma potência jornalística e uma ferramenta indispensável da diplomacia e das relações internacionais.
Nascido em Cincinnati, Ohio, em 19 de novembro de 1938, Turner herdou uma pequena empresa de outdoors de seu pai, que ele expandiu agressivamente. Seu império começou a tomar forma nos anos 1970, quando adquiriu uma modesta estação de TV em Atlanta, a WTCG. Com uma antena parabólica, ele a transformou na primeira "superestação" do país, a TBS (Turner Broadcasting System), alcançando lares em toda a América do Norte e estabelecendo o modelo para a TV a cabo moderna.
O apetite de Turner para os negócios era insaciável. Além da CNN e da TBS, ele criou canais como o TNT (Turner Network Television), o Cartoon Network e o Turner Classic Movies (TCM). Para garantir conteúdo para suas emissoras, ele fez uma de suas aquisições mais famosas em 1986: comprou o estúdio de cinema MGM/UA, garantindo um vasto catálogo de filmes clássicos, que se tornaram a base da programação da TCM.
Apesar de seu sucesso estrondoso, a carreira de Turner também foi marcada por perdas significativas. Em 1996, ele vendeu seu conglomerado, a Turner Broadcasting System, para a Time Warner em uma transação de US$ 7,5 bilhões, tornando-se o maior acionista individual da nova empresa e seu vice-presidente. Contudo, a fusão subsequente da Time Warner com a gigante da internet AOL, em 2001, provou-se um desastre financeiro. O colapso das ações da AOL Time Warner dizimou a fortuna de Turner, que chegou a perder US$ 7 bilhões em dois anos e foi gradualmente afastado de posições de poder na companhia.
Fora do mundo corporativo, Turner era uma figura grandiosa, conhecida por sua personalidade excêntrica e por suas posições firmes. Foi casado três vezes, incluindo um matrimônio de uma década com a atriz e ativista Jane Fonda, de 1991 a 2001. A união de duas personalidades tão fortes e midiáticas foi um prato cheio para a imprensa da época.
Sua faceta como filantropo é tão notável quanto sua carreira. Em 1997, ele chocou o mundo ao anunciar uma doação histórica de US$ 1 bilhão, na época um terço de sua fortuna pessoal, para criar a Fundação das Nações Unidas (UN Foundation), uma organização dedicada a apoiar causas da ONU. Turner também foi um dos maiores proprietários de terras dos Estados Unidos, usando suas vastas propriedades para promover a conservação ambiental e a criação de bisões.
Afastado dos negócios, seus últimos anos foram dedicados a suas causas e à sua família. Em uma entrevista rara em 2018, ele falou abertamente sobre sua doença, descrevendo os sintomas como "cansaço, exaustão e perda de memória". Mesmo debilitado, o homem que um dia prometeu que iria "viver para sempre" deixou um legado que, sem dúvida, o fará.










