Um grupo católico que celebra missas em latim e se recusa a aceitar as reformas modernizadoras da Igreja está crescendo no Brasil e se prepara para um novo confronto com o Vaticano. A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) marcou para 1º de julho, na cidade suíça de Écône, a ordenação de quatro novos bispos, um ato que não tem a autorização da Santa Sé.
O Vaticano já alertou que a decisão pode resultar na excomunhão dos envolvidos, a punição mais severa da Igreja Católica. A medida, considerada raríssima por especialistas, já foi aplicada ao fundador do grupo em 1988.
Em São Paulo, na capela da FSSPX no bairro da Vila Mariana, as missas remetem a um período anterior. O padre celebra a maior parte do tempo de costas para os fiéis, voltado para o altar, em latim. O ambiente é preenchido com o som de sinos e o cheiro de incenso. As mulheres e meninas vestem saias longas e cobrem os cabelos com véus de renda.
A FSSPX foi fundada em 1970 na Suíça pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, como uma reação ao Concílio do Vaticano 2º (1962-1965). O concílio promoveu grandes mudanças, como a celebração de missas no idioma local e uma maior abertura ao diálogo. Lefebvre e seus seguidores viram nessas reformas uma ruptura com a tradição da Igreja.
O conflito se intensificou em 1988, quando Lefebvre foi excomungado pelo Papa João Paulo 2º após ordenar quatro bispos sem o consentimento papal. Mesmo com a punição, a fraternidade continuou a crescer e se internacionalizar.
A chegada do grupo ao Brasil está ligada a um racha com católicos tradicionais de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Em 2002, a Diocese de Campos, que também era crítica ao Concílio Vaticano 2º, fez um acordo de reconciliação com Roma. Fiéis descontentes com a decisão convidaram a FSSPX a atuar no país.
Segundo o historiador Vinícius Couzzi Mérida, mestre e doutor em Ciências da Religião, a fraternidade começou sua atuação no norte fluminense, em São Paulo e na região Sul. Hoje, possui 14 capelas no Brasil, em cidades como São Paulo, Indaiatuba (SP), Curitiba (PR), Cuiabá (MT) e Fortaleza (CE), estando ausente apenas na região Norte.
Mérida aponta que o movimento é crescente, reunindo cerca de um milhão de fiéis e 700 padres em todo o mundo. "Trata-se de um movimento crescente", afirma o historiador, ressaltando que, além da FSSPX, existem outros grupos dissidentes que se multiplicam.
A Santa Sé, sob o Papa Leão 14, conforme citado pela fonte original, já comunicou que as novas ordenações sem consentimento serão vistas como uma ruptura formal e punidas com excomunhão. "Ao que tudo indica, a Santa Sé permanecerá irredutível, exigindo que a Fraternidade aceite o Concílio Vaticano 2º", opina Mérida. Como o grupo não dá sinais de que irá recuar, o historiador acredita que "os bispos, sacerdotes e os futuros bispos que serão sagrados serão excomungados".
A reportagem da fonte original tentou contato com o superior da congregação no Brasil, padre Juan María de Montagut Puertollano, e com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mas não obteve retorno.








